sábado, 8 de fevereiro de 2014

A BASE BÍBLICA DA PREDESTINAÇÃO





 Por Fred H. Flooster

                  A tarefa do teólogo, segundo Calvino, "não é distrair os ouvidos com tagarelices, porém, fortalecer as consciências pelo ensino de coisas verdadeiras, certas e proveitosas". Nem é o teólogo que determina o que é verdadeiro, certo e proveitoso; isso é dado só pela Escritura. "Pois nossa sabedoria não deve consistir em nada mais do que abraçar, com humilde disposição para aprender - e pelo menos sem negligência -, tudo aquilo que é ensinado na Sagrada Escritura". "Devemos buscar, na Escritura, a regra certa tanto para o que fazemos como para o que falamos regra à qual tanto os pensamentos de nossas mentes, quanto às palavras de nossas bocas, devem conformar-se". Para Calvino, a Escritura é a Palavra de Deus inspirada e infalível. Como vontade revelada do Deus vivo, a Escri¬tura é a única fonte da teologia de Calvino.

            Por que Calvino está tão empenhado em explicar e defen¬der a doutrina da predestinação? Ele afirmou: "Posso declarar, com toda verdade, que eu só falei sobre este assunto, quando a Palavra de Deus me conduziu a isso, como, em verdade, os piedosos leitores dos meus primeiros escritos, especialmente das Institutas, podem depreender prontamente". Depois de definir a predestinação à luz do seu estudo bíblico, ele advertiu seus leitores para que "não assumissem posição preconcebida de nenhum dos dois lados, enquanto os textos da Escritura não fossem aduzidos, e ficasse clara qual a opinião que deveria ser mantida". Calvino apoiou esta doutrina na Escritura e é também por esse padrão que ele queria que sua exposição fosse julgada. Esta doutrina não foi elaborada especulativamente com provas isoladas de textos agregados aleatoriamente. Na verdade em apoio a ela são citadas muitas passagens bíblicas, porém ,a estrutura básica da doutrina depende da Escritura (como um todo), especialmente das Cartas de Paulo aos Romanos e aos efésios. O primeiro comentário de Calvino foi escrito sobre a carta aos Romanos, e seu estudo desta Carta influenciou-o na elaboração da doutrina da predestinação, nas Institutas Calvino estava convencido de que, "se entendermos esta epístola, teremos aberto a porta para entendermos toda a escritura".

            Um axioma, para Calvino, era que o teólogo deve ser obediente ao ensino da Palavra de Deus: "Devemos ter tal apetite para com a Palavra de Deus, que qualquer diferença de interpretação de nossa parte, possa alterá-la tão pouco quanto possível… É, portanto, presunçoso e quase blasfemo torcer o sentido da Escritura, sem o devido cuidado, como se fosse algum jogo de que estejamos participando". Quando seus Oponentes o acusaram de ter dado origem a uma doutrina que relaciona o endurecimento do homem com o eterno conselho de Deus, Calvino respondeu enfaticamente: "Certamente, não somos nós o autor desta opinião... Paulo ensinou isto antes de nos... Pois nesta matéria nada discutimos que não tenha sido ensinado por ele". Aqueles que se escandalizam com a distinção de Paulo entre eleição e reprovação, Calvino respondeu: "Porém, que ousadia contestar ao Espírito Santo e a Paulo!".

            Conquanto insistisse em que a Escritura deve ser a única base desta doutrina, Calvino reconhecia que havia, especialmente, dois perigos que podem surgir quando tratamos com a Escritura. De um lado, é possível ao homem deixar-se envolver por excessiva curiosidade, e ser levado a especulações que vão além do ensino da Escritura. Por outro lado, é possível tornar-se presa de excessiva timidez que impede dizer o que a Escritura afirma. Com relação ao primeiro perigo ele escreveu: "A curiosidade humana torna a discussão sobre a predestinação, já difícil por si mesma, muito confusa e perigosa, pois nada consegue impedir o homem de buscar as alturas, por elevação e atalhos proibidos, porque, se lhe fosse permitido, não deixaria a Deus segredo algum que pudesse investigar e desenredar".

            Os que são tentados pelo perigo da especulação devem lembrar-se de que, quando buscam compreender a predestinação, "estão penetrando nos arcanos da sabedoria divina. Se alguém, com audaciosa confiança, força a entrada neste lugar, não terá sucesso em satisfazer a sua curiosidade, mas entrará num labirinto do qual não poderá sair. Não é permitido ao homem investigar ilimitadamente aquelas coisas que o Senhor quis que ficassem ocultas nele mesmo, nem esquadrinhar, desde a eternidade, a majestade e a grandeza da sabedoria divina, que Ele quer que reverenciemos e não que compreendamos, para que Ele também se mostra a nós de forma maravilhosa". Os segredos de Sua vontade, que Ele quer que conheçamos, "Ele os revelou em Sua Palavra, para nosso benefício". Porém, no "momento em que formos além dos limites da Palavra, estaremos fora do rumo e em trevas... e, então, reiteradamente, vaguearemos, tropeçamos e nos confundimos". Contra este perigo, Calvino nos advertiu: "Antes de tudo, tenhamos presente diante de nós: Procurar outro conhecimento da predestinação, além daquele que a Palavra de Deus revela, não é menos insano do que vagar por um deserto sem caminho (Jó 12.24), ou procurar ver nas trevas. E não nos envergonhemos por ignorar algumas coisas nesta matéria, onde há uma certa douta ignorância".

            Calvino advertiu também contra o perigo oposto representado por aqueles "que são muito cautelosos e tímidos e desejam esconder a predestinação, com o objetivo de não perturbar as almas fracas". O cristão precisa "ter a mente e | ouvidos abertos a tudo o que Deus lhe diz". Porém, "quando o Senhor fecha os seus santos lábios, o cristão também, cessa de uma vez de inquirir". O cuidado de Calvino se revela no seguinte:

            "Porque a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual não é omitido nada do que seja útil e necessário saber. Por essa razão, nada é ensinado senão aquilo que convém saber. Portanto, precisamos precaver-nos contra crentes destituídos de qualquer conhecimento da predestinação, segundo a Escritura, temendo que pareçamos fraudá-los perversamente das bênçãos do seu Deus, ou acusar o Espírito Santo e zombar dele por ter Ele anunciado aquilo que, de qualquer modo, é proveitoso suprimir... O melhor limite de sobriedade para nós será não só seguir sempre a direção de Deus para aprender, mas, também, quando Ele deixar de ensinar, pararmos de tentar e ser sábios".

            Os homens profanos criticam, vituperam, ladram e zombam da predestinação. “Porém, se a oposição à doutrina da Escritura fosse capaz de deter o cristão, seria necessário também guardar em segredo (e não divulgar) doutrinas tais como a da Trindade, a da Criação”, na verdade, (seria necessário esconder) "as principais doutrinas que tratam da fé". A fonte bíblica de toda doutrina e os perigos a serem evitados se expressam na seguinte regra geral: "Desejo apenas levá-los a admitir que não devemos investigar aquilo que o Senhor tem mantido em segredo e que não devemos negligenciar aquilo que Ele tem trazido à luz, para, de um lado, não sermos condenados por excessiva curiosidade e, de outro lado, não sermos condenados por excessiva ingratidão". O desejo de Calvino era que devia florescer, na Igreja de Deus, "suficiente grandeza de alma", para "evitar que os mestres piedosos ficassem com vergonha de professar a verdadeira doutrina, por mais odiosa que ela possa parecer" e, também, pudessem "refutar a quaisquer acusações que os ímpios despejassem sobre ela".

Fonte: A doutrina da predestinação em Calvino, Fred H. Klooster. p. 13-16.

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