quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

II Crônicas 24:19 não afirma que Deus teve a intenção de fazer algo e a vontade humana resistiu?

Por Marcelo Flavio Radunz

       “Porém, o Senhor lhes enviou profetas para os reconduzir a ti; estes profetas testemunharam contra eles, mas eles não deram ouvidos” ou “Embora Deus lhes tenha enviado profetas para os fazer tornar ao Senhor, e embora tenham protestado contra eles, não deram ouvidos”. A interpretação arminiana desse versículo diz que era a intenção/ vontade de Deus trazer estas pessoas a Ele, mas eles não quiseram, e portanto, a vontade de Deus foi frustrada e seu querer resistido, mas só porque o versículo diz que Deus enviou os profetas para os reconduzir a ti e eles não deram ouvidos não quer dizer que era a vontade de Deus os fazer tornar a ti e não quer dizer que essa resistência foi algo livre de seu exaustivo controle, vamos analisar o versículo e ver que a interpretação arminiana não é a única aceitável e racional (de fato, como o livre-arbítrio e a teoria da possível resistência dos planos de Deus são anti-bíblicas, heréticas e incoerentes, a interpretação arminiana é inaceitável e irracional). 

             A passagem está tratando dos príncipes de Judá (v. 17) que deixaram a casa do Senhor e serviram os ídolos (v. 18). Então, Deus diz que enviou profetas para os trazer de volta, esses profetas protestaram contra eles, mas eles estavam tão cegos e endurecidos que não deram ouvidos. Quando é dito que “o Senhor lhe enviou profetas para os reconduzir a ti” ou que “Deus lhes tenha enviado profetas para os fazer tornar ao Senhor”, não deve ser entendido que era a intenção ou vontade de Deus conduzir essas pessoas de volta aos seus caminhos (se fosse, isso teria acontecido), e sim que essa era a intenção e propósito dos profetas. 

                 Trazê-los de volta ao Senhor nunca foi a intenção de Deus, mas a dos profetas, isto é, foi a intenção e vontade de Deus que tenha sido a intenção e vontade dos profetas trazê-los de volta, Ele queria que os profetas fossem lá com essa intenção e propósito (e justamente porque Ele queria que isso aconteceu), mas nunca foi a intenção dEle realmente reconduzir essas pessoas à Ele. Com “enviado” deve ser entendido que Deus ordenou que esses profetas fossem até lá, ou seja, esse foi um mandamento de Deus, uma ordem. Ele mandou que aqueles profetas fossem lá protestar, existem passagens que nos mostram que esse é o sentido da palavra: Jeremias 14:14-15; 23:21; 32. Para que Deus enviou esses profetas? Deus ordenou a eles que eles protestassem contra aquele povo para os reconduzir a ti. Deus mandou eles fazerem isso, foi uma ordem, não quer dizer que era a vontade dEle que eles voltassem. Com “o Senhor lhes enviou profetas para os reconduzir a ti”, devemos entender que essa era a missão dos profetas. Deus os enviou, ou seja, ordenou que eles fossem até com a missão de reconduzir as pessoas a Deus. Essa foi a ordem de Deus para esses profetas, algo como “vá e faça aqueles príncipes voltem a mim”, é isso que o verso está falando: O fato de Deus ter mandado esses profetas é a missão deles. Deus ordenou que eles fizessem isso, era pra isso que eles foram lá, para fazer aqueles príncipes tornarem aos caminhos retos de Deus. Reconduzir o povo era a intenção/ objetivo dos profetas, não de Deus. É isso que o verso fala... do mandamento de Deus para esses profetas e a missão deles (em nenhum momento é dito que Deus queria que essas pessoas tornassem a Ele). 

           O que esses príncipes resistiram não foi a vontade de Deus, mas a vontade dos profetas, e foi da vontade de Deus que isso acontecesse. Pode ser dito que esses príncipes resistiram a Deus apenas em um sentido humano ou externo, como em Lucas 7:30, Atos 7:51, isto é, como esses profetas eram homens de Deus e estavam pregando o que Deus mandou que pregassem, se eles resistiram aos profetas, pode ser dito que resistiram a Deus, porque era as ordens de Deus que estavam sendo pregadas por eles, Deus quem os mandou. Mas essa resistência acontece somente num nível externo, o que eles resistiram não era a vontade de Deus,  e sim os mandamentos de Deus que os profetas anunciavam (e foi da vontade de Deus que essa resistência acontecesse, portanto, mesmo quando eles resistiram aos profetas de Deus, ou seja, resistiram ao Senhor num nível externo, era o querer de Deus que isso acontecesse, por isso, nenhuma resistência à vontade de Deus aconteceu realmente), um caso escriturístico que mostra que pode ser dito que alguém resistiu a Deus pelo fato de alguém resistir à uma pessoa enviada por Deus e que prega sua palavra é Atos 5:1-9. Essa resistência se chama externa porque o Espírito não estava realmente operando internamente com a intenção de salvar essas pessoas. Deus mandou que esses profetas fossem converter o povo (uma ordenança; ordem; mandamento), mas de um modo metafísico, causou a indiferença e o desprezo pelos profetas naquelas pessoas. Por isso, não há motivos para interpretar que neste versículo, Deus estava tentando reconduzir os príncipes a Ele, porém os príncipes resistiram.

Obs: Existe um versículo que apresenta uma ideia idêntica a que encontramos no texto de 2 Crônicas, e este é Mateus 4:1 (“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”). Era a intenção de Deus enviar profetas com a missão de trazer os príncipes a Ele da mesma forma que era a intenção do Espírito enviar Jesus com o objetivo dEle ser tentado. Mas não era a intenção de Deus trazer os príncipes a si do mesmo modo que não era a intenção do Espírito que Jesus de fato caísse em tentação. Isto é, foi da vontade do Espírito que o Cristo fosse tentado, mas não foi de sua vontade que Ele caísse na tentação, assim como foi da vontade de Deus que seus profetas fossem tentar trazer os príncipes de volta, mas não foi sua vontade que eles voltassem.
 

2 comentários:

  1. *A interpretação arminiana desse versículo diz que era a intenção/ vontade de Deus trazer estas pessoas a Ele, mas eles não quiseram, e portanto, a vontade de Deus foi frustrada e seu querer resistido*

    O que claramente vai contra toda a apologética calvinista. Porém, esta interpretação parece ser mais próxima ao texto e não exige muito malabarismo interpretativo.

    *mas só porque o versículo diz que Deus enviou os profetas para os reconduzir a ti e eles não deram ouvidos não quer dizer que era a vontade de Deus os fazer tornar a ti*

    Ou seja, o que o versículo diz não é de forma alguma aquilo... que o versículo diz? Se, por exemplo, um versículo disser que Deus não destinou os crentes para a perdição, então nós devemos entender que os crentes na realidade vão se perder? Ou existem exceções?

    *e não quer dizer que essa resistência foi algo livre de seu exaustivo controle*

    O que seria a definição de 'livre arbítrio' para muitos calvinistas, suponho eu. Infelizente, nenhum arminiano nega isto.


    *não é a única aceitável e racional (de fato, como o livre-arbítrio e a teoria da possível resistência dos planos de Deus são anti-bíblicas, heréticas e incoerentes, a interpretação arminiana é inaceitável e irracional).*

    Ora pois! O resultado já foi decidido! A 'teoria da possível resistência aos planos de Deus' sequer foi invocada pelo 'arminiano' acima, e muito menos foi satisfatoriamente estabelecida e estudada para daí ser declarada "anti-bíblica" (algo muito relativo, afinal existem até "unitaristas bíblicos"), herética (algo que nem mesmo é afirmado em algum concílio das Igrejas), e incoerente (sendo que tal incoerência é sempre medida de fora, e não de dentro). Mas, mesmo assim, uma 'teoria fantasma' já foi julgada e condenada, sem nem mesmo ter sido averiguada se é admitida pelos arminianos.


    *que deixaram a casa do Senhor e serviram os ídolos*

    Isto é algo possível?


    *não deve ser entendido que era a intenção ou vontade de Deus conduzir essas pessoas de volta aos seus caminhos (se fosse, isso teria acontecido), e sim que essa era a intenção e propósito dos profetas.*

    Como? Então o texto deveria ser lido como "Eu enviei estes profetas, que tinham em seus corações a intenção de que vocês VOLTASSEM para mim"? Estranho, pois o texto nem de longe sugere isto. Aliás, não é meio que "argumentação circular" dizer "se fosse, teria acontecido"?

    Mais que isso, quando por exemplo dizemos que Deus entregou Seu Filho "para que todo crente não pereça", então na verdade não temos como saber se Deus de fato deseja salvar todo crente?

    No mais, o restante do texto tenta "transferir" a frustração divina para a conta dos profetas - ah, foram os profetas que foram frustrados, e não Deus. Isto não é comportado pela gramática.


    Em Mt 4, a ideia está longe de ser idêntica. De fato, o Espírito enviou Jesus ao deserto para ser tentado pelo diabo, e Jesus foi sim tentado. O texto não diz "para que Jesus sucumbisse à tentação". Isto invalida todo o paralelismo.

    Aliás, quando Jesus diz que falava em parábolas para endurecer, então na verdade não era a vontade de Deus que as pessoas terminassem endurecidas?

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  2. *O que claramente vai contra toda a apologética calvinista. Porém, esta interpretação parece ser mais próxima ao texto e não exige muito malabarismo interpretativo.

    Então nós temos um problema. Se a interpretação de que era a intenção/ vontade de Deus trazer estas pessoas a Ele, mas eles não quiseram, e portanto, a vontade de Deus foi frustrada e seu querer resistido parece ser mais próxima ao texto (o que eu entendo é que você está querendo dizer que é isso mesmo) então isso contrariaria aqueles versículos que dizem que a vontade de Deus será feita, que seus propósitos não podem ser frustrados como diz Jó 42 os quais creio que você conhece muito bem e não é necessário reproduzi-los aqui. Isso não é nenhum malabarismo, malabarismo é o que o arminianismo (principalmente o molinismo) faz com esses textos por exemplo Sl 139.16.

    *Ou seja, o que o versículo diz não é de forma alguma aquilo... que o versículo diz?

    Não seja ingênuo.O que foi colocado é que o versículo não expressa aquilo que os arminianos poderiam interpretar (o que acabei de citar acima, o fato da vontade de Deus ser frustrada).

    * Se, por exemplo, um versículo disser que Deus não destinou os crentes para a perdição, então nós devemos entender que os crentes na realidade vão se perder? Ou existem exceções?

    Acabei de responder. O seu exemplo é tão infantil que seria semelhante a dizer: não vá para A (mas ele quis dizer que fosse para B). É totalmente autocontraditório. O que não se aplica com o versículo em questão, visto que os arminianos o interpretam erroneamente, isto é, como se realmente a vontade de Deus tivesse sido frustrada, o que contraria alguns versículos (estou sendo repetitivo, foi mal).

    *O que seria a definição de 'livre arbítrio' para muitos calvinistas, suponho eu. Infelizente, nenhum arminiano nega isto.

    Tá.

    *Isto é algo possível?

    Se é possível eles terem deixado a casa do Senhor e servido os ídolos? Como assim, não entendi. Os versículos dizem isso.

    *Como? Então o texto deveria ser lido como "Eu enviei estes profetas, que tinham em seus corações a intenção de que vocês VOLTASSEM para mim"? Estranho, pois o texto nem de longe sugere isto. Aliás, não é meio que "argumentação circular" dizer "se fosse, teria acontecido"?

    Não vejo que seria, como já mostrei.

    *Mais que isso, quando por exemplo dizemos que Deus entregou Seu Filho "para que todo crente não pereça", então na verdade não temos como saber se Deus de fato deseja salvar todo crente?

    O que isso tem que ver? não temos como saber se Deus de fato deseja salvar todo crente? Quem Deus se propõe a salvar, isso será efetivado, não preciso colocar os versículos que comprovam isso.

    *Em Mt 4, a ideia está longe de ser idêntica. De fato, o Espírito enviou Jesus ao deserto para ser tentado pelo diabo, e Jesus foi sim tentado. O texto não diz "para que Jesus sucumbisse à tentação". Isto invalida todo o paralelismo.

    É exatamente isso, amigo. O espírito levou Jesus para ser tentado, mas não para cair em tentação. Isso comprova o que foi colocado aqui: foi da vontade do Espírito que o Cristo fosse tentado, mas não foi de sua vontade que Ele caísse na tentação, assim como foi da vontade de Deus que seus profetas fossem tentar trazer os príncipes de volta, mas não foi sua vontade que eles voltassem.

    *Aliás, quando Jesus diz que falava em parábolas para endurecer, então na verdade não era a vontade de Deus que as pessoas terminassem endurecidas?

    Era, é exatamente isso, e é o que prova que se fosse sua intenção fazer algo, isso seria feito. Nada do que você colocou contradiz a interpretação do texto aqui em questão. Na verdade, só corrobora.

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