quarta-feira, 12 de março de 2014

A BASE BÍBLICA DA VOCAÇÃO EFICAZ


 Por Anthony A. Hoekema

            Neste ponto precisamos voltar um pouco e refletir sobre o que a Bíblia ensina a respeito do que as criaturas caídas são por natureza. São elas naturalmente — isto é, á parte do trabalho especial do Espírito Santo — capazes de responder ao convite do evangelho em fé e arrependimento?

            A Bíblia ensina que elas não são. Vejamos primeiro I Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural [ou ‘não espiritual’; em grego, psychicos] não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Paulo se refere aqui ao que o homem é por natureza, ao homem não regenerado. Tais pessoas não só não entendem as coisas que vêm de Deus, mas, pior, essas coisas lhe são loucura, Paulo diz algo semelhante em Romanos 8.7: “Por isso, o pendor da carne [‘a mente pecaminosa’, ‘a mente carnal’; em rego, to phronema tes sarkos] é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar”. A “mente pecaminosa” é a mente do ser humano pela sua natureza; se essa mente é hostil a Deus (ou “inimiga de Deus”) e não está apta a submeter-se à lei divina, como pode ela responder favoravelmente ao apelo para arrependimento e fé? A condição dos seres humanos naturais é descrita com palavras devastadoras em efésios 2.1-2: “E vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito eu agora atua nos filhos da desobediência”. Nossa condição natural não é somente de enfermidade espiritual — uma doença que pode, talvez, ser curada com algum esforço de nossa parte. Não, nossa condição é de morte espiritual. E como pode alguém espiritualmente morto responder favoravelmente ao convite do evangelho?

            Jesus ensinou claramente que por natureza não somos aptos a aceitar o convite do evangelho quando ele disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo [literalmente, nascer do alto; em grego, gennethe anothen], não pode ver o reino de Deus (...) quem não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.3,5). Não somente não podemos entrar no reino, como não podemos sequer vê-lo, a não ser que recebamos vida do alto. Veja o que Jesus disse aos judeus: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). Somos espiritualmente mortos e, por isso, precisamos ser vivificados espiritualmente antes que possamos responder afirmativamente às sinfonias da graça de Deus: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos e pecados, nos deu vida juntamente com Cristo -, pela graça sois salvos” (Ef 2.4,5).

            Se nossa condição natural é como a descrita nas passagens mencionadas, é óbvio que não podemos, por nós mesmos, aceitar o convite do evangelho. Pedir às pessoas que são, por natureza, espiritualmente mortas, hostis a Deus, incapazes de entender as coisas do Espírito de Deus e incapazes de se submeter à lei de Deus, que respondam favoravelmente ao convite para arrepender-se dos pecados e crer em Cristo, é como pedir a uma mulher totalmente surda que responda a uma pergunta, ou a um cego que leia um recado. É como ficar em pé na beira do telhado e pedir a uma pessoa na calçada que voe até lá.

            Será que a Bíblia ensina algo sobre a vocação eficaz? – um chamado em que Deus eficazmente habilita-nos a responder ao convite do evangelho com um sim? Na verdade, ensina. Será útil nos voltarmos primeiramente para I Coríntios 1.22-24:

Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.

                Enquanto pregava, Paulo descobriu que alguns aceitavam e outros rejeitavam a sua mensagem. A única maneira pela qual ele pode ter descoberto que o Cristo crucificado que ele pregava era uma pedra de tropeço para alguns judeus e loucura para alguns gregos era pregando a eles e observando suas respostas. Mesmo aqueles aos quais o Cristo pregado era pedra de tropeço ou loucura, porém, haviam recebido o convite do evangelho. Quando Paulo acrescenta: “para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”, ele diz nada mais que “para aqueles a quem Deus eficazmente chamou” – chamados de maneira a responder favoravelmente ao evangelho. Assim a palavra, kletois, como usada nessa passagem, deve se referir à vocação eficaz.

            Para provar que a vocação eficaz está descrita aqui, pergunte a si mesmo se aqueles para os quais o Cristo crucificado é uma pedra de tropeço ou loucura, foram chamados. Se Paulo estava pensando apenas no convite do evangelho, a resposta seria sim. Mas Paulo, aqui, particularmente exclui os ouvintes incrédulos do número daqueles que foram chamados; só aqueles para os quais o evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus são denominados de kletoi, os chamados. E nesse contexto, de que há uma vocação no sentido de que foram eficazmente chamados, aqueles outros não foram chamados.

            Para mais uma vez realçar a diferença entre esses dois tipos de vocação, compare essa passagem com Lucas 14.24: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados [literalmente, aqueles vocacionados; em grego, ton keklemenon] provará a minha ceia”. Na passagem de Lucas nenhum dos chamados é salvo; mas na passagem de I Coríntios só os chamados são salvos.

            A distinção, portanto, entre esses dois tipos de chamado não é apenas uma “ficção calvinista”, como alguns arminianos alegam, ela está claramente baseada na escritura.

            Olhemos agora para Romanos 8.28-30, destacando de início o verso 28:

E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.

            Quem são aqueles para os quais todas as coisas cooperam para o bem (ou para cujo bem Deus opera em todas as coisas)? Eles são descritos de duas maneiras: os que “amam a Deus” e aqueles “que foram chamados segundo seu propósito”. A primeira dessas expressões fala do que esse povo faz: eles “amam a Deus”. A segunda expressão fala do que Deus faz: Deus os vocaciona “segundo o seu propósito” (tois kata prothesin kletois). Certamente, há um significado maior, aqui, no termo kletois (aqueles “que foram chamados”) do que apenas terem sido convocados pelo convite do evangelho. Essa certeza vem do complemento: o chamado do evangelho é uma vocação segundo seu propósito. Contudo, é certo dizer que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que são chamados, sem considerar se creem ou não? É possível dizer que todos os que recebem o chamado são pessoas que amam a Deus? Obviamente, não. Aqui, como em I Coríntios 1.24, a palavra kletois (aqueles “que foram vocacionados”) refere-se à vocação eficaz: aqueles a quem Deus, pelo Espírito Santo, efetivamente concede a vida, habilitando-os a responder em fé ao convite do evangelho. Esse chamado é “segundo seu propósito” de conduzi-lo à salvação – propósito fundado na escolha deles em Cristo antes da fundação do mundo (Ef 1.4).

            Os versos que se seguem, 29 e 30. Dão a razão da declaração feita no verso 28:

29 Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; 30 e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.

            “Chamados”, no verso 30, deve ser entendido também como se referindo à vocação eficaz, por duas razões: (1) “chamado” está apenas expressando na forma de verbo (ekalesen) aquilo que foi dito no verso 28 em forma de substantivo: “[aqueles] que foram chamados” (kletois). As pessoas mencionadas como “aqueles chamados”, no verso 30, são as mesmas pessoas “chamadas segundo seu propósito”, no verso 28. Assim, os versos 29 e 30 fundamentam o verso 28. (2) Todos os que foram “chamados”, no verso 30, são também mencionados como justificados: “aos que chamou a esses também justificou”. Ninguém pode dizer que todos os que receberam o chamado do evangelho foram justificados independentemente de terem crido. Mas pode-se dizer que todos os que foram efetivamente vocacionados são justificados – e que finalmente serão glorificados. “Chamados”, portanto, nos versos 28 e 30, quer dizer “efetivamente vocacionados”.

            Outra passagem em que a palavra “chamado” é usada no sentido de “vocação eficaz” é I Coríntios 1.9: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados (eklethete, de kaleo) à comunhão do seu filho Jesus Cristo, nosso Senhor”. A “comunhão do filho de Deus significa união e comunhão com Cristo – uma comunhão que deixa subentendido que Cristo susterá até o fim os crentes aos quais Paulo escreve (v. 8). “Chamado”, nessa passagem, não pode significar simplesmente o convite do evangelho que pode ser rejeitado ou aceito; deve significar a “vocação eficaz” pela qual os amigos cristãos foram levados a um vivo relacionamento com Cristo.

            Paulo usa frequentemente o termo “chamado” no sentido de “vocação eficaz”. Ver, por exemplo, Romanos 1.7, 9.23,24, I Coríntios 1.26, Gálatas 1.15 e Efésios 4.1,4. Esse uso não é, contudo, restrito a Paulo; nós encontramos a mesma palavra, usada com o mesmo sentido por outros autores do Novo Testamento.

            Pedro a utiliza dessa forma em I Pedro 2.9: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou (kalesantos, de kaleo) das trevas para a sua maravilhosa luz”. Pedro se dirige aos seus leitores como “o povo escolhido” e “povo de propriedade exclusiva de Deus”, deixando claro que o “chamado” aqui significa mais que o convite do evangelho que pode ser recusado. Vocês não estão mais nas trevas, mas na luz, diz Pedro, por causa da “vocação eficaz” de Deus.
           
            Devemos olhar também o que diz II Pedro 1.10: “Por isso, irmãos, procurai com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição”. Nessa passagem o chamado é mencionado no mesmo fôlego que a eleição e também é tratado como inseparavelmente unido á eleição. Há apenas um artigo definido (ten) antes dos dois substantivos, klesin (chamado) e eklogen (eleição). Isso significa que essas duas palavras são tratadas como uma unidade e devem ser vistas como tal: não nosso chamado separado da nossa eleição, mas chamado e eleição juntos.

            Obviamente, portanto, “chamado” (klesin), aqui, não pode se referir apenas ao convite do evangelho, por duas razões: (1) ele está ligado com “eleição” (eklogen) por um artigo definido, e “eleição” só pode dizer respeito à escolha que Deus faz desde a eternidade. Um chamado que forme uma unidade com a eleição só pode ser a “vocação eficaz”; (2) não adianta dizer a alguém que assegure ou confirme seu convite do evangelho; uma vez escutado o evangelho ou uma vez lida a mensagem do evangelho, a pessoa já foi chamada nesse sentido. “Confirmar a vossa vocação” deve significar: confirme que você foi eficazmente chamado – isto é, que você foi eleito para a vida eterna em Cristo. Você pode se assegurar disso, Pedro explica, reunindo diligentemente “(...) fé (...) conhecimento (...) domínio próprio (...) perseverança (...) peidade (...) fraternidade (...) e (...) amor” (v. 5-7). Observando os frutos da vocação eficaz em sua vida, Pedro está dizendo, você pode ter certeza de que foi efetivamente vocacionado.

            Um uso similar da palavra “chamado” pode ser encontrado no primeiro verso da epístola de Judas: “Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados (kletois), amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo”. Nem todos os que recebem o convite do evangelho são amados pelo pai e guardados em Cristo, mas somente aqueles que são eficazmente levados à comunhão do Deus trino. Há também uma passagem no livro de Apocalipse em que o termo “chamado” é usado para descrever os “chamados, eleitos e fiéis” de Cristo: “Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão também os que estão com ele, os chamados, e eleitos, e fiéis.” (Apocalipse 17.14). Concluímos que o Novo Testamento realmente ensina que há uma vocação eficaz de Deus, diferente do convite do evangelho.

Fonte: Salvos pela graça, Anthony A. Hoekema. p. 89-94.        

               

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