domingo, 6 de abril de 2014

A TEORIA GOVERNAMENTAL DA EXPIAÇÃO



Por R. K. McGregor Wright

            Segundo a nova teoria arminiana desenvolvida por Hugo Grotius, Deus realizou a expiação por colocar Cristo como um exemplo pretendendo ilustrar o que o pecado realmente merece. Os pecadores deveriam concluir disso que, para que o mundo possa ser governado de maneira própria, eles devem ser moralmente obedientes a Deus. Assim, essa teoria é chamada de teoria governamental. Como Platt deixa claro, ela foi inventada como uma alternativa ao pensamento calvinista da morte penal e substitutiva de Cristo pelo pecador. Tem sido assinalado, por outros estudiosos, que a ideia de Grotius é realmente uma forma da teoria da influência moral, visto que o seu poder salvador repousa não em ser um preço pago ou punição em favor do pecador, mas em ser meramente um exemplo proporcionado por Deus para induzir fé e arrependimento ao revelar quão medonho é o pecado e o que ele merece.

            Que há, de fato, uma influência moral pretendida por Deus na morte de seu filho, não pode ser colocado em dúvida. Porém, reconstruir a obra total da expiação em torno dessa ideia é colocar muito peso nesse conceito, além de ignorar outros elementos da expiação que se apresentam muito mais fortes na escritura do que qualquer grau de influência moral.

            O poder moral da cruz para influenciar os pecadores para Deus é o bem ilustrado por um hino famoso:

I
When I survey the wond’rous Cross
(Quando eu contemplo a cruz maravilhosa)
On which the Prince of Glory died,
(sobre a qual o príncipe da glória morreu),
My richest gain I count but loss
(meu ganho mais precioso eu considero como perda)
And pour contempt on all my pride
(e derramo total desprezo sobre todo o meu orgulho).
            Mas isso não nega, nem é um substituto adequado para:

II
They turned their eyes
(Eles desviaram os olhos [dele])
And treated him with scorn;
(E trataram-no com desprezo);
But ‘twas their griefs upon him lay,
(Mas foram as aflições deles postas sobre ele),
Their sorrows He has born.
(Suas tristezas ele suportou).
III
Like sheep we went astray
(Como ovelhas nós nos desviamos)
And broke the fold of God,
(e deixamos o aprisco de Deus),
Each wandering in a different way,
(cada um se desviando para um caminho diferente),
But all the downward Road.
(Mas todos em direção ao fundo).
IV
How dreadful was the hour
(Quão terrível foi a hora)
When God our wanderings laid
(Quando Deus estabeleceu nossos desvios)
And did at once his vengeance pour
(E derramou sua vingança de uma só vez)
Upon the shepherd’s head!
(Sobre a cabeça do pastor!)
V
How glorious was the Grace
(Quão gloriosa foi a grace)
When Christ sustained the stroke!
(Quando Cristo suportou o golpe!)
His life and blood the shepherd pays
(Com sua vida e seu sangue o pastor paga)
A ransom for the flock.
(Um resgate pelo rebanho).

            Essas últimas quatro estrofes são do mesmo Isaac Watts que escreveu a primeira e mais famosa estrofe. Watts não tinha qualquer dificuldade em convidar o rebanho para cantar ambos os conceitos, o sacrifício substitutivo e o da influência moral, virtualmente no mesmo fôlego. Grotius, contudo, rejeitou o primeiro enquanto promoveu o segundo.

            É importante para os nossos propósitos presentes observar que, no conceito de Grotius, a real eficácia da morte de Deus em nos salvar depende inteiramente da nossa resposta. A morte em si mesma é uma mera demonstração da retidão divina, que por si mesma não salva ninguém. Naturalmente, os arminianos ficaram totalmente felizes com o conceito de Grotius, enquanto calvinistas como John Owen escreveram de maneira firme contra essa teoria, tentando demonstrar as afinidades desse conceito com as ideias ainda menos ortodoxas dos socinianos, a quem ela devia pouca coisa historicamente. De fato, a principal obra de Grotius sobre a expiação é hoje realmente entendida como uma crítica ao socianismo.

            Os arminianos evangélicos modernos frequentemente preferem uma teoria da influencia moral porque ela, de maneira muito evidente, presta-se a uma ilustração vívida na pregação do evangelho, mas o conceito da substituição é igualmente fácil para ilustrar. Já em Gênesis 22 encontramos elementos preditivos no oferecimento de Isaque. O cordeiro proporcionado por Deus morre no lugar do filho pecador do pai Abraão. “... Tomou Abraão o cordeiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho” (v.13).

            Alguns liberais modernos têm continuado a usar a linguagem da “influência moral”, mas eles não têm um propósito racional subjacente à morte de Cristo para explicar como ela poderia ser o ato de “um amor remidor”, da maneira como eles a apresentam. Algumas vezes é observado, de modo incisivo, que nós não realizamos nada por ninguém que amamos ao meramente oferecer a nossa própria vida. A questão do significado da cruz permanece, portanto, para todos aqueles que não percebem a relação entre o ato e o seu propósito, além do mero fato de um profeta inoportuno chocar-se com as autoridades por causa do seu estilo pessoal de messianismo que falhou em satisfazer a expectativa popular.

            O essencial para qualquer teoria da expiação é que a morte de Cristo foi um ato deliberado da sua parte. O que, exatamente, ele pensava que estava fazendo? A ideia calvinista da morte de Cristo procura responder a essa pergunta de maneira explícita.

Fonte: A soberania banida, R. K. McGregor Wright. p. 151-154.

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