terça-feira, 1 de abril de 2014

PREDESTINAÇÃO E LIVRE ARBÍTRIO



Por R.C. Sproul

            A predestinação parece lançar uma sombra exatamente no coração da liberdade humana. Se Deus decidiu nossos destinos desde toda a eternidade, isso sugere fortemente que nossas escolhas não são senão charadas, exercícios vazios de atuação teatral predeterminada. É como se, na realidade, Deus tivesse escrito o roteiro para nós, e estivéssemos meramente encarregados do cenário.

            Para lidarmos com a enigmática relação entre predestinação e livre arbítrio, precisamos primeiro definir livre arbítrio. Essa definição é, ela mesma, um assunto de grande debate. Provavelmente a definição mais comum seja a que diz que o livre arbítrio é a capacidade de fazer escolhas sem nenhum preconceito, inclinação ou disposição anteriores. Para o arbítrio ser livre, é preciso agir a partir de uma postura de neutralidade, sem absolutamente nenhuma tendência.

            Na superfície isto é muito atraente. Não há elementos de coerção, nem externos nem internos, a serem encontrados aí. Embaixo da superfície, contudo, estão à espreita dois sérios problemas. Por um lado, se fazemos nossas escolhas estritamente a partir de uma postura natural, sem nenhuma inclinação anterior, então fazemos nossas escolhas sem nenhuma razão. Se não temos nenhuma razão para nossas escolhas, se nossas escolhas são totalmente espontâneas, então nossas escolhas não têm nenhum significado moral. Se uma escolha apenas acontece — apenas surge, sem nenhuma rima ou razão — então não pode ser julgada boa ou má. Quando Deus avalia nossas escolhas, ele está interessado em nossos motivos.

[...]
            Se não há nenhuma inclinação ou desejo anteriores, nenhuma motivação anterior, ou razão para uma escolha, como pode uma escolha ser feita? Se a vontade é totalmente neutra, por que iria escolher a direita ou a esquerda? É algo como o problema encontrado por Alice no país das maravilhas, quando chegou a uma bifurcação na estrada. Ela não sabia para que lado ir. Ela viu o radioso gato Cheshire na árvore. Perguntou ao gato: “Para que lado devo seguir?” O gato replicou: “Para onde você está indo?” Alice respondeu: “Não sei” “Então”, disse o gato Cheshire, “isso não importa.”

[...]
            Outra famosa ilustração do mesmo problema é encontrada na história da mula que tinha desejo neutro. A mula não tinha desejos anteriores, ou desejos iguais em duas direções. Seu proprietário pôs uma cesta de aveia à sua esquerda e uma cesta de trigo à sua direita. Se a mula não tivesse nenhum desejo, tanto pela aveia como pelo trigo, ela não escolheria nenhum e passaria fome. Se ela tivesse uma disposição exatamente igual para a aveia como tinha para o trigo, ainda assim iria passar fome. Sua disposição igual a deixaria paralisada. Não haveria motivo. Sem motivo, não haveria escolha. Sem escolha, não haveria comida. Sem comida, logo não haveria mula. Precisamos rejeitar a teoria da vontade neutra não somente porque é irracional, mas porque é radicalmente antibíblica.   
     
Fonte: Eleitos de Deus, R. C. Sproul. p. 37-39.

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