quinta-feira, 24 de abril de 2014

UM ENTENDIMENTO ARMINIANO DA ELEIÇÃO

Por Terrance Tiessen


            Tendo exposto com todas as letras as suas objeções à doutrina da dupla predestinação (no capítulo 5 de Contra o calvinismo), Roger Olson esboça a alternativa arminiana que ele julga ser superior.

UMA DOUTRINA ARMINIANA DA ELEIÇÃO

            Como John Wesley afirmou que a doutrina clássica arminiana da eleição é o pré-conhecimento de Deus de quem livremente receberá a graça capacitadora preveniente que Deus dá em igual medida para todos. Deus também prevê quem resistirá esta graça, estes são os reprovados. Desde que os homens decidem quem é eleito e quem é reprovado (isto é, depende do homem aceitar ou não o convite do evangelho), ambas eleição e reprovação são condicionais (129). Jack Cottrell argumenta que Deus voluntariamente se limitou ao dar às criaturas a liberdade autêntica (que é libertariana). Olson concorda com isso, e ele argumenta que esta é a única forma de fazer justiça aos textos bíblicos que declaram o amor de Deus por todos os seres humanos (João 3.16; 1 Tm 2.4) e tem em conta as expressões de condicionalidade na narrativa bíblica, tais como a tristeza de Deus, compaixão e reação ao comportamento (132).

            O entendimento da eleição que mais atrai Olson, porém, não é a escolha de indivíduos na condição de fé prevista, mas a eleição corporativa, que ele intitula como “a principal alternativa para a visão de eleição e salvação do ‘forte’ calvinismo” (130). Eu acho isso uma preferência comum entre os arminianos destes dias. Para uma boa confirmação da posição, Roger faz referência a William Klein que afirma que “a vontade de Deus não determina os indivíduos específicos que receberão esta salvação” (citado na página 130). Deus deseja a salvação para todos, mas “ele deseja (no sentido mais forte) dar vida àqueles que creem” (citado na página 131). “Cristo é o eleito de Deus, e a igreja é eleita nele” (citado a página 130), mas ela é graciosamente os indivíduos capacitados, respondendo ao chamado de Deus em Cristo, que decide a membresia da igreja. Deus sempre soube que estas pessoas serão e “ele as escolhe como um corpo em Cristo”, mas estas pessoas são as únicas cujo arrependimento e fé voluntários faz delas parte do corpo eleito.

MINHAS REFLEXÕES

            Eu apreciei o livro de Klein The New Chosen People quando eu o li anos atrás. Ele me convenceu de que a escritura tinha mais a dizer sobre a eleição corporativa de Israel e da igreja do que eu tinha visto anteriormente. Eu também vi que alguns dos textos que eu tinha interpretado como referências à salvação de indivíduos eram na verdade sobre o papel histórico deles no plano do pacto de Deus, tais como a discussão de Paulo sobre a escolha de Jacó em vez de Esaú, em Romanos 9. No entanto, eu não sou capaz de ignorar muitos textos eletivos que falam claramente da salvação de indivíduos, e eu não posso escapar da forte ligação entre estes textos e aqueles que nos ensinam sobre o chamado eficaz de Deus daqueles a quem ele (Deus) escolheu salvar.

            A última questão aparecerá como o foco de um capítulo posterior no livro de Olson, assim eu não expandirei sobre isso agora. Mas eu levarei um momento agora para identificar algumas referências bíblicas que descrevem a inequívoca escolha de Deus de indivíduos particulares para a salvação.

A ELEIÇÃO INCONDICIONAL DE INDIVÍDUOS PARA A SALVAÇÃO

            Os arminianos às vezes sugerem que a ideia de eleição individual incondicional apareceu pela primeira vez nas obras posteriores de Agostinho, mas Bruce Damarest demonstrou que este não é o caso. Atanásio (373) às vezes falava de eleição incondicional. Comentando Efésios 1.3-5 e II Tm 1.8-10, ele observou que “enquanto a queda foi ‘prevista’ a salvação de algumas pessoas foi predestinada ou ‘preparada de antemão’” (Discourse Against the Arians, 2.75-76; citado por Demarest, The Cross and Salvation, 114). Depois, Ambrósio (430) escreveu: “Deus chama aqueles a quem ele concede chamar; ele faz piedoso a quem ele quer fazer piedoso, pois se ele quisesse ele poderia ter convertido o ímpio em piedoso” (Exposition of the Gospel of Luke, 7.27; citado por Demarest, The Cross and Salvation, 114).

            Agostinho rejeitou a noção posterior assumida pelos arminianos de que o divino pré-conhecimento é simplesmente presciência. Apropriadamente, ele escreveu: “Se Deus nos escolheu com base no que ele previu que nós deveríamos ser bom, então ele também previu que nós não seríamos os primeiros para fazer a escolha dele (On the Gospel of St. Jn, 86.2; citado por Demarest, 115).

            Eu admito que o AT tem muito a dizer sobre a escolha incondicional de Deus de Israel como seu povo mas, dentro daquele povo, aqueles que tinham o que Paulo depois chama de “a fé de Abraão”, aquela que justifica, foram identificados como o remanescente fiel. Este era um grupo cuja fé genuína era obra de Deus. Eles eram os “escolhidos” de Deus (Is 65.15, 22; cf v.9), os chamados do Senhor (Joel 2.32) e aqueles que são reunidos pelo Senhor (Mq 2.12). Este era o remanescente que colocaria sua confiança no Senhor, que foram designados o povo de Deus (Is 10:20-24; Jr 31:7; Is 37:32). 

            Olson frequentemente e acertadamente, cita Jesus como a revelação suprema de Deus como amor. Desde que eu não posso escrever um tratado inteiro sobre a eleição no NT, eu mencionarei apenas o que eu vejo nos evangelhos, particularmente no ensino de Jesus. Lá, a eleição está principalmente em termos do reino de Deus, que é herdado por aqueles para quem Deus o preparou desde a fundação do mundo (Mt 20:23; 25:34). Deus é o autor daquela escolha (Lc 18:7; Mt 24:22,24,31; Mc 13:20-22) e ele a fez antes que o mundo tivesse sido feito. A parábola dos trabalhadores, em Mateus 20.1-16, nos ensina que Deus não é obrigado a tratar todos da mesma forma; todos recebem justiça, mas alguns recebem graça. Havia muitas viúvas necessitadas no tempo de Elias, mas ele foi enviado apenas para a viúva de Sarepta (Lc 4:25-26; 1 Rs 17:8-24); embora houvesse muitos leprosos em Israel, Naamã, o sírio, foi o único que foi curado (Lc 4:27; 2 Rs 5:1-14).

            É direito soberano do pai (sua eudokia, o beneplácito da sua soberana vontade) revelar ou ocultar o significado das palavras e ações de Jesus como ele quiser (Mt 11:25-26).
            Eu encontro no evangelho de João de forma explícita a escolha soberana de Deus de indivíduos particulares para serem salvos “O Filho dá vida a quem ele quer” (João 5.21), e Jesus sabia quais dos seus discípulos ele tinha escolhido (João 13:18). Ele tinha escolhido o grupo para o ministério, mas ele os escolheu individualmente, exceto Judas, para a salvação. Em João 10, Jesus se refere ao seu povo eleito como “as ovelhas;” elas são as pessoas a quem o pai deu especificamente ao filho (10:29; 17:2, 6, 9, 24; 18:9), e todos aqueles a quem o pai deu ao filho  virão a este (João 6.37).

            Jesus escolheu estas pessoas do mundo ambos para serviço e salvação (Jo 15:19; 17:6, 14, 16). Como D. A. Carson observa “elas são as ovelhas obedientes de Cristo em seu propósito salvífico antes delas serem suas ovelhas na prática obediente” (Divine Sovereignty, 192; citado por Demarest, 126). O pastor morreu para alcançar a salvação das ovelhas (Jo 10:11, 15), e então Jesus “revela-se redentivamente àqueles que o pai deu a ele do mundo (João 17.6, 8), e por aqueles ele intercede    no céu” (Damarest, 126). O pastor conhece as suas ovelhas e as chama pelo nome (10.3, 14, 27); as ovelhas conhecem a voz do pastor e o seguem (10.4, 27), mas outras não creem porque elas nãos são         ovelhas dele (10.26). Isto é, as pessoas não se tornam ovelhas porque elas creem, elas creem porque elas são ovelhas!
TEODICÉIA

            Em respostas às referências arminianas sobre a bondade de Deus, eu duvido que o apelo deles ao simples pré-conhecimento divino tenha vantagens significantes para uma teodicéia. As pessoas realmente ficarão mais satisfeitas com o arminianismo do que com o calvinismo, quando dizem para elas que Deus sabia o risco que ele correria em dar às criaturas livre arbítrio libertariano, mas que ainda ele escolhe deixar os seres humanos decidirem quantas pessoas serão salvas e quanto mal existiria no mundo? Pessoalmente, eu me regozijo na crença de que estas decisões momentâneas foram mantidas no controle do único sábio e bom Deus que criou a todos nós.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://thoughtstheological.com/an-arminian-understanding-of-election/

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