domingo, 4 de maio de 2014

O SÍNODO DE DORT



             A resposta dos reformados holandeses ao desafio lançado pelos arminianos veio por meio da convocação de um concilio ecumênico das igrejas protestantes na cidade de Dort, na Holanda. O concilio começou em 1618. Todas as igrejas reformadas do norte da Europa foram convidadas a participar do Sinodo, e efetivamente vieram delegados representando as igrejas da Inglaterra, Palatinado, Hesse, Zurique, Berna, Basel, Schaffhausen, Genebra, Bremen e Emden. A igreja francesa não pode se fazer representar, pois os delegados designados foram proibidos de deixar o país pelo rei da Franca. E a igreja da Escócia também não pode enviar seus representantes, por causa de um período de turbulência política pelo qual passava. No de cinco professores de teologia e 26 teólogos estrangeiros, alem de 18 comissários políticos, que não eram membros do sínodo, mas que supervisionaram o processo, noticiando o mesmo ao governo holandês. A formulação doutrinaria foi publicada na forma dos famosos cinco pontos, em resposta aos cinco pontos formulados pelos arminianos, e foi assinada por todos os delegados presentes no Sínodo.[1] Seguiremos aqui a ordem da resposta reformada como apareceu originalmente nos Cânones de Dort.

            A eleição e incondicional. Deus escolhe os indivíduos para serem salvos, sem referencia alguma as suas boas obras previstas ou qualquer ação que eles fariam no sentido de crer no evangelho. Se Deus dependesse de sua presciência para descobrir quem creria, para elegê-las, sua presciência somente revelaria que ninguém creria em Cristo. E porque ninguém creria em Cristo, Deus escolhe os que serão salvos. Os Cânones (1.10-12) afirmam:

A causa desta eleição graciosa e somente o bom propósito de Deus. Este bom propósito não consiste no fato de que dentre todas as condições possíveis Deus tenha escolhido certas qualidades ou ações dos homens como condição para a salvação. Mas este bom propósito consiste no fato de que Deus adotou certas pessoas dentre a multidão inteira de pecadores para ser sua propriedade. (...) Como Deus e supremamente sábio, imutável, onisciente e Todo-Poderoso, assim sua eleição não pode ser cancelada e depois renovada, nem alterada, revogada ou anulada; nem mesmo podem os eleitos ser rejeitados ou o numero deles ser diminuído. Os eleitos recebem, no devido tempo, a certeza da sua eterna e imutável eleição para a salvação, ainda que em vários graus e em medidas desiguais. Eles não a recebem quando curiosamente investigam os mistérios e profundezas de Deus. Mas eles a recebem quando observam em si mesmos, com alegria espiritual e gozo santo, os infalíveis frutos de eleição indicados na Palavra de Deus, tais como uma fe verdadeira em Cristo, um temor filial para com Deus, tristeza por seus pecados contra a vontade de Deus e fome e sede de justiça.

            Cristo morreu no lugar dos eleitos de tal maneira que realmente pagou o preco do pecado deles, libertou-os da penalidade do pecado, e garantiu a sua salvacao. Ele nao proporcionou uma salvacao hipotetica, ou seja, nao ofereceu apenas a oportunidade de salvacao, que precisaria ser realizada pela realizacao de alguma boa obra do pecador, mas uma salvacao real que garantiu para sempre a salvacao dos eleitos. Os Canones (2.8) afirmam:

Pois este foi o soberano conselho, a vontade graciosa e o propósito de Deus, o Pai, que a eficácia vivificante e salvífica da preciosíssima morte de seu Filho fosse estendida a todos os eleitos. Daria somente a eles a justificação pela fé e, por conseguinte, os traria infalivelmente a salvação. Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo, por meio do sangue na cruz (pelo qual ele confirmou a nova aliança), redimisse efetivamente, de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos e lhe foram dados pelo Pai. Deus quis que Cristo lhes desse a fé, que ele mesmo lhes conquistou com sua morte, juntamente com outros dons salvíficos do Espírito Santo. Deus quis também que Cristo os purificasse de todos os pecados por meio do seu sangue, tanto do pecado original como dos pecados atuais, que foram cometidos antes e depois de receberem a fé. E que Cristo os guardasse fielmente ate o fim e finalmente os fizesse comparecer perante o próprio Pai em gloria, sem macula, nem ruga.

            A humanidade esta morta no pecado. Ela nao esta viva nem doente, mas morta. Isso quer dizer que todas as esferas do ser humano, tais como a mente, a vontade e as emocoes, estao corrompidas pelo pecado. Sem a intervencao sobrenatural do Espirito Santo, ninguem receberia livremente a oferta do evangelho. Os Canones (3-4.1-3) afirmam:

No principio o homem foi criado a imagem de Deus. Foi adornado em seu entendimento com o verdadeiro e salutar conhecimento de Deus e de todas as coisas espirituais. Sua vontade e seu coração eram retos, todos os seus afetos, puros; portanto, era o homem completamente santo. Mas, desviando-se de Deus sob instigacao do diabo e pela sua livre vontade, ele se privou desses dons excelentes. Em lugar disso trouxe sobre si cegueira, trevas terríveis, leviano e perverso juízo em seu entendimento; malicia rebeldia e dureza em sua vontade e em seu coração; e ainda impureza em todos os seus afetos. Depois da queda, o homem corrompido gerou filhos corrompidos. Então a corrupção, de acordo com o justo julgamento de Deus, passou de Adão ate todos os seus descendentes, com exceção de Cristo somente. Não passou por imitação, como os antigos pelagianos afirmavam, mas por procriação da natureza corrompida. Portanto, todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, incapazes de qualquer ação que os salve, inclinados para o mal, mortos no pecado e escravos do pecado. Sem a graça do Espírito Santo regenerador não desejam nem tampouco podem retornar a Deus, corrigir sua natureza corrompida ou ao menos estar dispostos a essa correção.
 
            Deus chama a todos ao arrependimento, mas, por meio do Espirito Santo, chama eficaz e irresistivelmente os eleitos. Por isso, a regeneracao vem antes da conversao. De acordo com os Canones (3-4.8-10):

Tantos quantos são chamados pelo Evangelho, o são seriamente. Porque Deus revela seria e sinceramente em sua Palavra o que lhe agrada, a saber, que aqueles que são chamados venham a ele. Ele também seriamente promete descanso para a alma e vida eterna a todos que a ele vierem e crerem. Muitos são chamados através do ministério do Evangelho, mas não vem nem são convertidos. A culpa não e do Evangelho, nem de Cristo, que e oferecido pelo Evangelho, nem de Deus, que os chama através do Evangelho e inclusive lhes confere vários dons. A culpa e deles mesmos. Alguns não aceitam a Palavra da vida por descuido. Outros de fato a recebem, mas não em seus corações e, por isso, quando desaparece a alegria de sua fé temporária, viram as costas a Palavra. Ainda outros sufocam a semente da Palavra com os espinhos dos cuidados e prazeres deste mundo e não produzem nenhum fruto. (...). Outros que são chamados pelo ministério do Evangelho vêm e são convertidos. Isto não pode ser atribuído ao homem, como se ele se distinguisse por sua livre vontade de outros que receberam a mesma e suficiente graça para fé e conversão, como a heresia orgulhosa de Pelágio afirma. Mas isto deve ser atribuído a Deus: como ele os escolheu em Cristo desde a eternidade, assim ele os chamou efetivamente no tempo. Ele lhes da fé e arrependimento; ele os livra do poder das trevas e os transfere para o reino de seu Filho.

            Aqueles que Deus salvou perseverarão em santidade, sendo guardados ate a glorificação. Por isso, não e possível que o cristão venha a perder a salvação. Segundo os Cânones (5.8-9):

Assim, não e por seus próprios méritos ou forca, mas pela imerecida misericórdia de Deus que eles não caem totalmente da fé e da graça e nem permanecem caídos ou se perdem definitivamente. Quanto a eles, isto facilmente poderia acontecer e aconteceria sem duvida. Quanto a Deus, porem, isto não pode acontecer de modo nenhum. Pois seu decreto não pode ser mudado, sua promessa não pode ser quebrada, seu chamado em acordo com seu propósito não pode ser revogado. Nem o mérito, a intercessão ou a preservação de Cristo podem ser invalidados, e a selagem do Espírito tampouco pode ser frustrada ou destruída. Os crentes podem estar certos e estão certos dessa preservação dos eleitos para a salvação e da perseverança dos verdadeiros crentes na fé. Esta certeza ocorre de acordo com a medida de sua fé, pela qual eles creem que são e permanecerão verdadeiros e vivos membros da Igreja, e que tem o perdão dos pecados e a vida eterna.

            Em conclusão, devemos dizer que os ministros e teólogos reunidos em Dort não estavam preocupados com questões especulativas, que aparentemente não estavam relacionadas com a vida diária. Para aqueles homens, esta não era uma controvérsia acadêmica. Aqueles que estavam reunidos no Sínodo de Dort perceberam que o que estava em jogo era a questão central da salvação pela livre graça, pois “se os arminianos tivessem prevalecido e suas doutrinas introduzidas na igreja, o resultado final seria destrutivo para a doutrina crista da salvação”.[2]

            Atualmente e difícil classificar as denominações evangélicas presentes no Brasil como sendo ou calvinistas ou arminianas, principalmente por causa do pouco interesse quanto a precisão doutrinaria, por parte de muitas dessas denominações. Historicamente, um estudo das confissões de fé dessas denominações mostra a forte presença da doutrina reformada da eleição entre os anglicanos, batistas, congregacionais, luteranos e presbiterianos. Os metodistas, menonitas, pentecostais, neopentecostais e alguns batistas adotaram o arminianismo, desde o inicio — uma exceção foram os metodistas do país de Gales, que eram calvinistas. Atualmente, entre os que historicamente receberam influencias calvinistas, a maioria dos batistas são arminianos, com alguma influencia da teologia liberal, enquanto o arminianismo e o liberalismo são proeminentes entre anglicanos, congregacionais e muitos luteranos. Enquanto o calvinismo ainda e dominante entre os presbiterianos, acaba por existirem também arminianos e liberais em seu meio.

Fonte: Teologia sistemática, Franklin Ferreira & Alan myatt. p. 719-722.


[1]Para um resumo da historia do Sinodo de Dort, cf. John R. de Witt, “O Sinodo de Dort”. In: Jornal os puritanos
(Ano III - No. 2), p. 27-30. Para mais detalhes historicos, inclusive sobre a intolerancia arminiana, manifesta nos anos
anteriores ao sinodo, cf. Frans Leonard Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil holandes: 1630-1654, p. 29-44.

[2] Cf. John R. de Witt, “O Sinodo de Dort”, p. 30

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