sexta-feira, 16 de maio de 2014

UMA CRÍTICA AOS ARGUMENTOS WESLEYANOS A FAVOR DA GRAÇA PREVENIENTE (PARTE I)



Por Thomas R. Schreiner

            Nós agora analisaremos os quatro argumentos a favor da graça preveniente desenvolvidos pelos wesleyanos. Eu argumentarei que a causa deles não é convincente e que sua doutrina da graça preveniente não é encontrada na escritura. Wesleyanos, porém, desenvolveram alguns argumentos exegéticos e teológicos em defesa da graça preveniente que serão considerados aqui. 

            Nós nos voltamos em primeiro lugar a João 1.9. A frase crucial para os nossos propósitos é phōtizei panta anthrōpon (que ilumina a todo homem), cuja iluminação é atribuída à “verdadeira luz”. Wesleyanos entendem esta iluminação como se referindo à graça preveniente, que é dada a todas as pessoas, mas há sérias razões para duvidar que este seja o significado do verso. Na verdade, o verso pode ser entendido de três formas diferentes que não cede à interpretação wesleyana. Primeiro, a iluminação poderia se referir à revelação geral, que é garantida a todas as pessoas através da ordem criada.[1] Isto muda o debate para um campo diferente, pois alguns argumentam que a revelação geral é suficiente para a salvação.[2] Tal visão não é convincente dada a estima de Paulo da revelação geral em Romanos 1.18-32.[3] Em todo caso, D. A. Carson está correto em rejeitar uma referência a revelação geral desde que isto teria sido mais apropriadamente tratado no início do prólogo (isto é, João 1.3-4).[4] O contexto específico não é a revelação geral mas a resposta das pessoas ao verbo encarnado de Deus, Jesus Cristo.

            Segundo, a iluminação pode se referir a uma iluminação interior que leva à conversão.[5] Neste caso, João não estaria dizendo que a iluminação é dada a todas as pessoas “sem exceção”, mas a todas as pessoas “sem distinção”.[6] A luz não é confinada aos judeus, mas também tem um efeito entre os gentios. Outras ovelhas que não são do aprisco dos judeus serão conduzidas (João 10.16). Jesus não morreu apenas pelos judeus, mas também pelos filhos de Deus espalhados em todo o mundo (João 11.51-52).

            O contexto de João 1.9-13, porém, sugere que outra interpretação é a mais provável.[7] A palavra iluminar (phōtizō) se refere não a uma iluminação interior, mas a exposição que vem quando a luz é lançada sobre algo. Alguns se mostram ser maus porque eles não conheceram ou receberam Jesus (João 1.10-11), enquanto outros são revelados justos porque eles têm recebido a Jesus e nascido de Deus (João 1.12-13). João 3.19-21 confirma esta interpretação. Aqueles que são maus se esquivam da luz porque eles não querem que suas obras sejam expostas (v. 20). Mas aqueles que praticam a verdade alegremente vêm para a luz de forma que possa ser manifesto que suas obras são feitas em Deus (v. 21). A luz que ilumina a toda pessoa não implica a concessão da graça, nem se refere à iluminação interna do coração pelo espírito de Deus. Em vez disso, a luz expõe e revela o estado moral e espiritual do coração de alguém. C. K. Barrett corretamente diz que “a luz brilha sobre todo homem para julgamento, para revelar o que ele é.” [8] Ou, como Carson observa: “iluminação interior não está em vista aqui”, mas “a revelação objetiva” que ocorre na vida da “luz verdadeira.” [9] João 1.9 não está, portanto, sugerindo que através da vinda de Cristo a cada pessoa é dada a habilidade de escolher a salvação. O propósito do verso é dizer que a vinda da luz verdadeira expõe e revela onde as pessoas estão no relacionamento delas com Deus.[10]
 
Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Chapter 9 in Still Sovereign. Thomas R. Schreiver and Bruce A. Ware, eds. Grand Rapids, Baker, 2000.


[1] Leon Morris, The Gospel According to John, NICNT (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), 95.

[2] Na verdade, na teologia wesleyana não há uma linha clara de demarcação entre revelação geral e revelação especial com respeito à graça preveniente. 

[3] Veja a exegese minuciosa de Moo (Romans 1-8, 91-124) em defesa dessa conclusão. Nem Romanos 2.14-15 sugere a possibilidade de salvação por meio da obediência da consiciência de alguém. Veja Thomas Schreiner “Does Paul Believe in Justification by Works?” Outro olhar em Romanos 2 “The Bulletin for Biblical Research 3 (1993): 131-58. Wesley acreditava que esta passage ensinava a doutrina da graça preveniente. Veja John Wesley, Explanatory Notes Upon the New Testament, 2 vols. (reprint, Grand Rapids: Baker, 1981), comentário de Romanos 2.14 no volume 2.

[4] D. A. Carson, The Gospel According to John (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 123.

[5]  A palavra phōtizō tem o significado de iluminação interna, Sl 18.9 (LXX); Efésios 1.18; 3.9.

[6] Carson, John, 123.

[7] Para a interpretação sugerida aqui veja  C. K. Barret, The Gospel According to St. John (Philadelphia: Westminster, 21978), 161; Carson, John, 124.

[8] Barrett, John, 161.

[9] Carson, John, 124.

[10] João enfatiza que a luz, Jesus, veio ao mundo a fim de que as pessoas pudessem crer nele (1:6-8; 12:35-36) ou segui-lo (8.12). O chamado para crer na luz, no entanto, está muito longe de dizer que a todos foi dada a habilidade de crer. Na verdade, João, falando daqueles que não criam, diz que eles “não podiam crer” porque Deus tinha “cegado seus olhos” (12.39-40). Este endurecimento de Deus não diminui a responsabilidade humana aos olhos de João (12.43). Jesus veio ao mundo como luz a fim de que as pessoas cressem nele e assim elas deveriam fazer! Para alguns comentários sábios sobre como o endurecimento judicial de Deus é compatível com outros temas bíblicos veja Carson, John, 448-49.

3 comentários:

  1. Usar o vers isolado de João 1:9 e não olhar o contexto é pretexto, se usarmos apenas o vers 7 já da para refutar essa afirmação da graça preveniente.

    Ele veio como testemunha, para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. João 1:7

    Esse todos os homens com certeza está se referindo a homens de todas as nações, de todas as raças etc., porque no vers fala > todos os homens cressem < sabemos que nem todos os homens quando ouve a palavra tem fé e crê então logo concluímos que esse todos os homens tanto no vers 7 e 9 de João são os eleitos.

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    1. Um pequeno erro: dizer que Ele veio "para que todos os homens cressem" não é a mesma coisa que dizer "todos os homens infalível e definitivamente crerão". Qualquer calvinista poderia ver aqui o paradigma das duas vontades, a oculta e a revelada.

      Por exemplo, no deserto, Deus quis aniquilar o povo israelita que estava sacrificando ao bezerro de ouro, mas não o fez porque Moisés intercedeu por eles.

      É óbvio que Deus estava "a fim de" matar todos e só deixar Moisés, e é mais óbvio ainda que Deus assim não fez. E aí? De acordo com você, teríamos que ter uma contradição...

      Usar coisas como "todo tipo de homem, mas não todo homem" não passa de uma tentativa de injetar a própria teologia em vez de extraí-la do texto. Exatamente o mesmo pecado que John Owen comete em seus livros.

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  2. O texto não parece deixar claro que "a luz" aí só sirva para "ajudar a catar o feijão", mas que ela realmente tenha poder de transformar. Afinal, é o próprio Filho de Deus, aquele que é dito como "escolhendo vocês, e não vocês a mim", que é dito como sendo esta luz que ilumina todo homem.

    Outra coisa é que virtualmente todo evangelista afirma que o homem deve ser confrontado com seu pecado antes de ser enfim convertido. Esta luz está fazendo exatamente isto.
    Ou Jesus só veio para separar aqueles que já faziam boas obras daqueles que faziam más obras? Isso vai contra todo o impulso evangelístico.

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