terça-feira, 20 de maio de 2014

UMA CRÍTICA AOS ARGUMENTOS WESLEYANOS A FAVOR DA GRAÇA PREVENIENTE (PARTE II)



Thomas Schreiner

            Wesleyanos apelam á graça dada na expiação e morte de Cristo por todos como uma indicação da graça preveniente. Eu não examinarei a questão da expiação desde que      ela é tratada em outro lugar nessa obra. [1] Na verdade, cavinistas têm tipicamente visto a graça como concedida aos eleitos na expiação, mas neste caso a graça outorgada é eficaz e garante a salvação. A questão é se na expiação de Cristo a concepção wesleyana da graça preveniente é ensinada; isto é, a escritura ensina que às pessoas é dada a habilidade de escolher ou rejeitar a Deus em virtude da expiação? Sem dúvida a graça é manifestada na expiação. Por exemplo, em Tito 2.11 diz que “a graça de Deus que traz salvação se manifestou a todos os homens.” Calvinistas geralmente argumentam que este texto ensina que a expiação assegura e realiza a redenção dos eleitos. Não é meu propósito defender ou refutar esta interpretação. Ainda que o texto estivesse sugerindo que a salvação está potencialmente disponível para todas as pessoas (I Tm 4.10), isto está muito longe de dizer que através da expiação Deus neutralizou os efeitos do pecado de Adão de forma que todas as pessoas têm a oportunidade de aceitar ou rejeitá-lo. Tito 2.11 diz que a graça de Deus se manifestou através da obra de Cristo na cruz, mas ele não diz que Deus tem desse modo fornecido a habilidade de crer a todas as pessoas. Wesleyanos concluem da expiação efetuada por Cristo que graça suficiente tem sido transmitida a todas as pessoas de forma que agora elas podem escolher se creem ou não. Mas este é precisamente o ponto que não é ensinado explicitamente no verso. Não necessariamente segue-se que desde que a graça foi manifestada na morte de Cristo que todas as pessoas como um resultado têm a habilidade de crer nele. O suporte exegético específico para esta conclusão está em falta.

            Um texto que poderia conduzir à conclusão wesleyana é João 12.32. Mas isto envolve uma má leitura do texto. Em João 6.37 Jesus diz: “todo aquele que o meu pai me dá virá a mim, e todo aquele que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” Note que este texto especificamente ensina que apenas alguns virão a Jesus, ou seja, aqueles que foram dados pelo pai ao filho. Em outras palavras, o pai não deu todos ao filho, ele selecionou apenas alguns, são estes que virão ao filho e crerão nele (João 6.35).[2] O ensino de João 6.37 é reafirmado em 6.44: “Ninguém pode vir a mim se o pai que me enviou não o trouxer, eu o ressuscitarei no último dia.” A palavra trazer (helkuō), que é usada em João 12.32, é também usada em João 6.37. O ponto em João 6.37 é que o pai não traz todas as pessoas, apenas algumas. Carson corretamente observa: “A combinação do verso             37a e o verso 44 prova que esta atividade de ‘atração’ do pai não pode ser reduzida ao que os teólogos ás vezes chamam de ‘graça preveniente’ dispensada a cada indivíduo, pois esta ‘atração’ é seletiva, ou então a nota negativa do verso 44 é sem significado.”[3] A concepção joanina de atração não é aquela que faz a salvação possível, mas aquela que faz a salvação eficaz. Aqueles que são atraídos virão a Jesus e crerão nele.

            Esta definição de atração significa que João ensina universalismo, desde que João 12.32 diz que Jesus atrairá todos a ele em virtude da cruz? O contexto de João 12.20-33 nos ajuda a responder esta questão. Os gregos, isto, gentios, se aproximaram de Filipe porque eles queriam ver Jesus (v. 20-23). Jesus ignora o pedido e em vez disso fala da necessidade de um grão de trigo morrer a fim de dar fruto (v. 24-26), e deste compromisso de cumprir sua missão (v. 27-28). A morte de Jesus é o meio pelo qual o julgamento de Deus do mundo e seu triunfo sobre satanás será realizado (v. 31). Ele conclui dizendo que quando ele for levantado atrairá todas as pessoas a ele (v. 32).

            O contexto é de suprema importância para o entendimento de João 12.32. Jesus parece ignorar o pedido de seus discípulos para se encontrar com os gregos que queriam vê-lo. Mas o ponto que Jesus faz é que a única forma pela qual os gregos virão a ele é através de sua morte. Ele deve morrer a fim de dar muito fruto e trazer os gentios a ele. O poder de satanás como o governante do mundo será quebrado apenas pela cruz. Assim, quando Jesus fala de atrair todas as pessoas para ele em virtude da cruz, o assunto no contexto é como os gentios podem vir a Jesus. A atração de todos não se refere a todas as pessoas individualmente, mas o meio pelo qual os gentios serão incluídos no povo de Deus. Carson novamente interpreta o verso corretamente: “aqui ‘todos os homens’ lembra o leitor o que desencadeou estas afirmações, ou seja, a chegada dos gregos, e significa ‘todas as pessoas sem distinção, judeus e gentios igualmente’, não todos os indivíduos sem exceção.”[4] A teoria wesleyana de que a graça preveniente é fornecida na expiação de forma que às pessoas é dada habilidade de escolher a salvação não pode ser sustentada no contexto de João 12.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Chapter 9 in Still Sovereign. Thomas R. Schreiver and Bruce A. Ware, eds. Grand Rapids, Baker, 2000.



[1] Veja capítulo 11 por J. I. Packer.
[2] Para um apoio mais detalhado da divina eleição em João veja Robert W. Yarbrough, “Divine Election m the Gospel of John," no capítulo 2 desta obra; veja também D. A. Carson Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension (Atlanta: John Knox, 1981), 125-98.
[3] Carson, John, 293.
[4] Para uma recente explicação desta distinção que é um modelo de careza veja David M Ciocchi, "Understanding Our Ability to Endure Temptation A Theological Watershed," JETS 35 (1992) 463-68.

Um comentário:

  1. ou seja, aqueles que foram dados pelo pai ao filho.

    Que se resumem somente aos doze discípulos, como está explícito na oração sacerdotal. E diga-se de passagem, um deles se perdeu.

    Em outras palavras, o pai não deu todos ao filho, ele selecionou apenas alguns, são estes que virão ao filho e crerão nele (João 6.35).
    O texto nem mesmo fala algo sobre os não-trazidos.
    E, como um dos trazidos se perdeu...

    A concepção joanina de atração não é aquela que faz a salvação possível, mas aquela que faz a salvação eficaz.

    Isto está sendo jogado em cima do contexto. É estranho que pouco seja dito sobre o contexto de Jo 6 aqui, apenas são citados dois versos a princípio "restricionistas", sem identificar quem são estes 'trazidos'.

    E falar "todos, tanto judeus como gentios" como que para 'diminuir a conta' não ajuda muito.

    O texto ainda fala de Jesus vencendo o diabo pela sua morte - a morte que passou por todos os homens, porque todos pecaram; e fala de Jesus expulsando o príncipe deste mundo, o qual governava a todos os filhos da ira.

    Afirmar que esta atração se restringe apenas a alguns, é o mesmo que dizer que o diabo e a morte têm poder sobre alguns, quando Jesus os venceu. Isto não é uma vitória, é um empate!

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