sexta-feira, 23 de maio de 2014

UMA CRÍTICA AOS ARGUMENTOS WESLEYANOS A FAVOR DA GRAÇA PREVENIENTE (PARTE III)



Thomas Schreiner

            O terceiro argumento wesleyano a favor da graça preveniente é provavelmente o mais poderoso. Por que Deus daria ordens a menos que às pessoas fosse dada alguma habilidade de obedecê-las? Romanos 2.4 diz que a bondade de Deus tem a pretensão de conduzir as pessoas ao arrependimento. Isto não implica que as pessoas têm a habilidade de se arrepender se elas simplesmente escolherem fazer assim?

            Deveria ser reconhecido que a lógica wesleyana é coerente aqui, e ninguém pode ver por que os wesleyanos deduziriam habilidade humana a partir da transmissão de ordens. No entanto, embora a lógica deles seja impecável, não necessariamente segue-se que a conclusão deles seja verdadeira. Um argumento pode ser logicamente coerente e não se encaixar com o estado de coisas no mundo porque a resposta dada não é compreensiva. Colocando de outra forma, uma das premissas no argumento wesleyano não está de acordo com a realidade da vida como retratada nas escrituras. Eles estão incorretos em deduzir que Deus não daria ordens sem dar uma habilidade moral para obedecê-las. A distinção entre habilidade física e moral é crucial.[1] Por exemplo, os seres humanos são fisicamente capazes (na maioria dos casos) de subir degraus, mas eles são fisicamente incapazes de saltar sobre as casas. De uma forma semelhante, Deus dá ordens para incrédulos para que eles possam obedecer fisicamente; isto é, eles poderiam observar mandamentos de Deus, se eles desejassem assim fazê-lo. Os incrédulos são moralmente incapazes de guardar os mandamentos de Deus no sentido de que eles não têm desejo de obedecer todos os seus mandamentos. Deus ordena a todas as pessoas (Gl 3.10; Rm 1.18; 3.20) que elas obedeçam a suas leis perfeitamente, mas ninguém é moralmente capaz de fazer isso. Porque todas as pessoas nascem com um pecado natural herdado de Adão, eles inevitavelmente pecam. Embora as pessoas não possam moralmente obedecer as ordens de Deus, os autores bíblicos assumem que eles deveriam guardar os mandamentos de Deus. Eles deveriam guardar os mandamentos de Deus porque eles são santos e bons (Rm 7.12) e não são fisicamente impossíveis de guardar. As pessoas poderiam observar os mandamentos de Deus se elas quisessem fazer assim. A visão bíblica, porém, é que incrédulos como escravos do pecado não têm desejo de guardar a lei de Deus.[2]

            O estado de coisas que se obtém sob a lei permanece   quando Cristo vem. Isto é, todas as pessoas deveriam vir a Jesus a fim de ter vida (João 5.40). Jesus censura aqueles que não creem apesar de todas as suas obras (Mt 11.20-24), e ele convida todos a virem a ele (Mt 11.28-30). No entanto, ele também ensina que ninguém pode ir a ele senão trazido pelo pai (João 6.44), e somente aqueles a quem o pai e o filho se revelam irão conhecê-lo (Mt 11.25-27). Todas as pessoas são convocadas a crer em Jesus e são repreendidas por não crer. No entanto, as escrituras também ensinam que eles não têm habilidade moral para crer, e que a única forma pela qual eles crerão é se eles são dados pelo pai ao filho. Esta revelação não é concedida a todas as pessoas, mas apenas aos eleitos. Jesus ordena aos crentes serem perfeitos (Mt 5.48), mas a necessidade de perdão (Mt 6.14-15) demonstra que a perfeição é impossível de se atingir.

            O problema com o Wesleyanismo neste ponto é que ele é guiado pela lógica humana e racionalidade em vez de pelas escrituras. A visão deles de que os mandamentos não seriam dados às pessoas uma vez que elas não têm a habilidade moral de obedecê-los é certamente atrativa. Mas o nosso contra-argumento é que tal noção não é ensinada nas escrituras. A doutrina do pecado original e da inabilidade humana é uma ofensa á razão.[3] Isto não quer dizer que é irracional. A distinção entre habilidade física e moral percorre um longo caminho em direção à resolução das dificuldades. 

            O estilo deste texto (Rm 2.4) deveria ser tomado seriamente, pois nossas pressuposições não deveriam ser lidas dentro dele. É o caso que a bondade de Deus deveria levar as pessoas ao arrependimento.[4] A bondade de Deus não é uma charada, mas está profundamente presente naquilo que ele poupa as pessoas e não as destrói imediatamente pelos pecados delas. A bondade e paciência de Deus deveriam induzir as pessoas a buscá-lo e confessar seus pecados. Mas este texto não diz que as pessoas têm a habilidade moral de se arrepender e se voltar para Deus. Ele simplesmente diz que elas deveriam se arrepender e se voltar para ele. Wesleyanos leem dentro deste verso a sua teologia da graça preveniente, espremendo assim dele mais do que aquilo que ele realmente diz.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Chapter 9 in Still Sovereign. Thomas R. Schreiver and Bruce A. Ware, eds. Grand Rapids, Baker, 2000.



[1] Para uma recente explicação desta distinção que é um modelo de clareza veja David M Ciocchi, "Understanding Our Ability to Endure Temptation A Theological Watershed," JETS 35 (1992) 463-68.
[2] Deveria ser pontuado que Adão foi criado com ambas as habilidades física e moral para obedecer aos mandamentos de Deus. Nós não podemos aqui buscar a questão difícil quanto a por que Adão pecou.
[3] Este é o título do livro de Bernard Ramm sobre o pecado original, Offense to Reason (New York: Harper and Row, 1985).
[4] O presente do indicativo agei é entendido aqui como conativo. C. F. D. Moule, An Idiom Book of New Testament Greek, 2d ed. (Cambridge: Cambridge University Press, 1959), 8. Agei não deveria ser pressionado como um presente do indicative para dizer que Deus na verdade está levando os judeus a se arrependerem. O ponto do verso é que a bondade de Deus deveria levá-los a se arrependerem.

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