terça-feira, 1 de julho de 2014

ROMANOS 9 ENSINA ELEIÇÃO INDIVIDUAL PARA A SALVAÇÃO? ALGUMAS REFLEXÕES EXEGÉTICAS E TEOLÓGICAS (PARTE I)


Por Thomas Schreiner

            Calvinistas tipicamente apelam a Romanos 9 para sustentar a sua teologia da divina eleição. Em particular, eles afirmam que Romanos 9 ensina que Deus incondicionalmente escolhe indivíduos para serem salvos. Por “incondicionalmente” eles querem dizer que Deus, na eternidade passada, livremente escolhe indivíduos específicos a quem ele salvará (Ef 1.4) e que sua escolha não é baseada na fé ou esforço deles previstos (Rm 9.16). Deus não simplesmente prevê, dizem eles, que certas pessoas colocarão sua fé nele, pois à parte da sua obra da graça em vencer sua resistência a ele ninguém desejaria ou poderia vir. Antes, ele preordena e determina que aqueles que foram escolhidos exercerão fé. 

            A exegese calvinista de Romanos 9, porém, está cada vez mais sendo questionada hoje. Muitos eruditos acreditam que a doutrina da eleição individual para a salvação é lida no texto por calvinistas e não pode ser defendida por um exame do contexto inteiro de Romanos 9-11. O que eu quero fazer neste artigo é explicar duas das objeções à leitura calvinista de Romanos 9, e então examinar  se as objeções são convincentes e persuasivas.

            As duas maiores objeções à interpretação calvinista de Romanos 9 são como se segue: (1) Romanos 9 é erroneamente explicado se alguém entende que ele se refere a salvação. Paulo não está se referindo a salvação neste texto. Em vez disso, o destino histórico de diferentes nações (especialmente Israel) está sendo narrado. (2) Ainda que Romanos 9 se refira a salvação em algum sentido, ela não se refere a salvação de indivíduos. A seção se refere a salvação de grupos, ou entidades corporativas, e não indivíduos.

            Cada uma das objeções serão explicadas e examinadas mais atentamente.

I. DESTINO HISTÓRICO OU SALVAÇÃO

            A primeira objeção é a de que o texto não se refere necessariamente a salvação. Antes, Paulo está descrevendo o destino histórico das nações. Por exemplo, ao discutir Romanos 9.14-18, Roger Forster e Paul Marston dizem, “o ponto em questão não é o destino eterno de ninguém, mas a história de Israel e sua  importância como nação escolhida. Este mesmo entendimento é refletido em um comentário de Charles Cranfield em Romanos 9.14-18:

“É importante enfatizar que nem quando elas ocorrem em Gênesis nem quando elas são usadas por Paulo estas palavras se referem aos destinos eternos ou das duas pessoas [Jacó e Esaú] ou dos membros individuais das nações; a referência é as relações mútuas das duas nações na história. O que está aqui em questão não é a salvação escatológica ou danação, mas as funções históricas daquelas e suas relações com o desenvolvimento da história da salvação.[1]

            Outros argumentam similarmente que os destinos temporais de ambos Esaú e Jacó estão em vista em ambas as citações do AT (Gn 25.12; Ml 3.1) e em Rm 9.11-13.[2] Entender que a salvação está em vista na referência a Esaú e Jacó em Romanos é muito improvável, de acordo com Craig Blomberg, porque não há dúvida de que o contexto do AT se refere ao destino temporal e histórico dos povos em vez de salvação.[3]

            Apesar da aparente plausibilidade e popularidade da visão de que Paulo está se referindo ao destino histórico em vez de salvação em Romanos 9, me parece que tal interpretação é equivocada. (Deveria ser notado, porém, que Blomberg crê que a predestinação única para a salvação está presente em Romanos 9.21-23, mas não deveria ser lida na primeira parte do capítulo.)[4] Ela é errônea porque ela não dá conta de ambos o contexto específico de Romanos 9 e o contexto amplo de Romanos 9-11. Em outras palavras, o que preocupa Paulo não é simplesmente que Israel tem perdido as bênçãos temporais, ou que seu destino histórico não evoluiu do jeito que ele antecipou. Paulo agoniza sobre o lugar de Israel em Romanos 9-11 porque muitos nesta nação não foram salvos. A evidência para sustentar que a salvação é o assunto em vista é como se segue.

1. Quando Paulo fala da angústia no seu coração e seu desejo de ser amaldiçoado por causa dos seus companheiros israelitas (Rm 9.1-3), a razão pela qual ele se sente assim não é porque Israel está simplesmente perdendo bênçãos temporais. Tormentos do seu coração porque seus parentes de Israel não foram salvos. Paulo está quase disposto a “ser separado de Cristo” (9.3) porque seus companheiros estão separados de Cristo.

2. A tese de Romanos 9-11 em 9.6 Não que a palavra de Deus haja falhado[5] refere-se às promessas de Deus de salvar seu povo Israel.[6] A afirmação de que a palavra de Deus não falhou no v.6 deveria ser ligada ao que Paulo acaba de sugerir nos versos 1-5 sobre seus parentes ser separados de Cristo. Ele não está simplesmente falando de bênçãos temporais de Israel na história, nem está fazendo uma afirmação geral sobre a estratégia de Deus na história. A questão particular em sua mente nos versos 1.5 refere-se à salvação de Israel, e assim a afirmação de que a palavra de Deus não falhou (9.6) deve ser interpretada em relação ao assunto que está em primeiro plano na mente de Paulo— a saber, a salvação de Israel.[7]
 
            Aqueles intérpretes que afirmam que Paulo está se referindo simplesmente ao destino histórico de Israel e não a salvação, não respondem plausivelmente a relação dos versos 1-5 com o restante do capítulo, pois os versos 1-5 deixam bem claro que a razão de Paulo trazer a questão da fidelidade no v. 6 é que uma grande porção de Israel não é salva. Na verdade, no restante de Romanos 9-11 Paulo tenta revelar como a palavra de Deus não falhou, embora uma grande porção do Israel étnico agora não crê em Cristo. Os versos seguintes (9.6b-11. 36), portanto, são melhor entendidos como tratando da questão específica que Paulo levantou nos versos 1-6— a saber, a fidelidade de Deus a Israel, embora muitos judeus falham por não crer em Cristo.[8] Os intérpretes que pensam que Paulo está descrevendo o destino histórico da nação à parte de qualquer referência à salvação são forçados a dizer que Paulo de afasta do próprio assunto que ele levantou em questão nos versículos 9.1-6a. 

3. O contexto subsequente em Rm 9.6b-29 também demonstra que a salvação está em vista. Por exemplo, Paulo argumenta que fato de ser um simples descendente étnico de Abraão não faz de ninguém um filho de Deus (9.6b-9). Os filhos da promessa é que são verdadeiramente filhos de Deus. As frases “filhos de Deus” (tekna tou Theou, 9.8) e “filhos da promessa” (tekna tes epangelias, 9.8) sempre se referem em Paulo àqueles que são os filhos salvos de Deus (cf. 8.16, 21; Fl 2.15; Gl 4.28).[9]

            Em adição a isso, Rm 9.11-12 confirma que o tópico é salvação e não simplesmente a recepção de promessas terrenas, pois Paulo diz que a eleição de Deus não é baseada “nas obras, mas naquele que chama.” Em outro lugar quando Paulo fala de “obras” ele se refere repetidamente à tese de que ninguém pode ser justificado ao fazer “as obras da lei” ou ao fazer quaisquer obras (cf. 3.20, 27-28; 4.2, 6; 9.32; 11.6; Gl 2.16; 3.2, 5,10; Ef 2.9; 2 Tm 1.9; Tt 3.5). Desde que Paulo tipicamente afirma que a salvação não é pelas obras, o ônus da prova está naqueles que o veem empregando esta terminologia de uma forma não-salvífica em Rm 9.11-12. O contexto específico de Romanos 9 confirma que a salvação está na mente de Paulo desde que sua preocupação em 9.1-5 é de que Israel não é salvo.

            II Timóteo 1.9 sustenta a ideia de que a salvação está em vista em Rm 9.11-12, pois o assunto dos versos é notavelmente similar. II Timóteo 1.9 diz que Deus “nos salvou e nos chamou com uma santa vocação não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos” e é notavelmente paralelo a Rm 9.11-12. Os paralelos entre os textos são pelo menos quatro: (1) Ambos falam do “chamado” de Deus (kaleo); (2) ambos enfatizam que o chamado não foi baseado em obras (erga); (3) ambos se referem ao propósito salvífico de Deus (prothesis); (4) ambos dizem que esta salvação foi decidida do início da história humana. Deveria também ser notado que em II Timóteo 1.9 o chamado é expressamente definido como um chamado salvífico. Na verdade, o “chamado” em Paulo (Rm 9.7, 24, 25, 26; 1 Co 1.9; Gl 1.6, 15; 5.8; Ef 4.1, 4; 1 Ts 2.12; 4.7; 5.24; 2 Ts 2.14; 1 Tm 6.12; 2 Tm 1.9) é mais frequentemente associado com um chamado para a salvação. E no contexto próximo de Rm 9.24-26 claramente se refere ao chamado tanto de judeus quanto de gentios para a salvação.

            Rm 9.22-23 também sugere que Paulo está falando de salvação e destruição eterna, pois ele contrasta os “vasos de ira preparados para a destruição” com os “vasos de misericórdia preparados de antemão para a glória.” A palavra para destruição (apöleia; Fl 1.28; 3.19; 2 Ts 2.3; 1 Tm 6.9) é usada frequentemente por Paulo como sendo a destruição eterna, enquanto “glória” (doxa; Rm 2.10; 8.18; 1 Ts 2.12; 2 Tm 2.10; cf. Cl. 3.4) às vezes é utilizada para descrever a vida eterna. Nós deveríamos notar novamente que tudo isto se encaixa com a questão principal que perturbou Paulo quando ele escreveu este capítulo— a saber, que Israel não foi salvo. Ele não deixou esta questão quando ele chega no fim do capítulo, pois ele cita Isaías com a finalidade de que o “remanescente será salvo” (Rm 9.27).[10]



[1] C. E. B. Cranfield, A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (ICC; Edinburgh: T. and T. Clark, 1979) 479.

[2] Cf. C. L. Blomberg, "Elijah, Election, and the Use of Malachi in the Old Testament," Criswell Theological Review 2 (1987) 109-116; W. S. Campbell, "The Freedom and Faithfulness of God in Relation to Israel," JSNT 13 (1981) 29.

[3] Blomberg, "Election" 109-111.

[4] Ibid. 112-113.

[5] Cranfield, Romans 473; Campbell, "Freedom" 28.

[6]  R. Badenas corretamente vê a conexão entre a fidelidade de Deus às suas promessas e salvação de Israel em 9.6 (Christ the End of the Law: Romans 10.4 in Pauline Perspective [JSNTSup 10; Sheffield: JSOT, 1985] 85).

[7] S. Williams questiona tal interpretação em sua crítica de Piper, justification, porque Romanos 9.6 fala da fidelidade da palavra de Deus a Israel em relação à promessa de que os gentios seriam incluídos no povo de Deus (JBL 104 [1985] 549-550). Williams também afirma que a separação de Israel de Cristo em 9.3 é apenas temporária. Deus , no fim, terá misericórdia de todos (11.32). O primeiro ponto de Williams pode ser afirmado sem afetar o ponto principal sendo argumentado aqui. Uma razão pela qual Paulo levantou o assunto da salvação de Israel foi precisamente porque se a promessa de Deus a Israel não poderia ser confiada, então como os gentios crentes poderiam estar seguros de que aquele que os predestinou para a salvação causaria o acontecimento da glorificação prometida deles (8.28-30)? Se as promessas de Deus a Israel são deixadas insatisfeitas, então a igreja não pode ter segurança de que nada a separará do amor de Cristo (8.35-39). No entanto isso não nega o fato de que Paulo ainda está se referindo à salvação do Israel étnico nestes versos. Aquele Israel étnico que está em vista é corretamente argumentado por B. W. Longenecker ("Different Answers to Different Issues: Israel, the Gentiles and Salvation History in Romans 9-11," JSNT 36 [1989] 96-97). O que Paulo diz sobre Israel tem implicações para os gentios, mas não é implicado que Paulo está falando sobre os cristãos gentios em 9.6b-9. O segundo ponto de Williams não pode ser examinado em detalhes aqui, mas ele parece sugerir que Paulo acreditava que todas as pessoas seriam salvas e que o endurecimento divino será em fim será suspendido por todos. Na verdade, Piper tem mostrado em outro lugar que o universalismo não pode ser lido plausivelmente de Romanos 11 ("Universalism in Romans 9-11? Testing the Exegesis of Thomas Talbott," Reformed Journal 33 [1983] 12-13).

[8] Longenecker, "Different Answers" 96.

[9] A objeção de Blomberg (“eleição” 114) de que “isto prova demais” desde que o alvo de Paulo é “assinalar a existência perene de um remanescente dentro do judaísmo” não parece me convencer. Eu concordo com Blomberg que Paulo está provavelmente falando apenas de judeus em Rm 9.6-9, mas tal admissão dificilmente prejudica o ponto de que quando Paulo diz “filhos de Deus” (9.8) ou “filhos da promessa” ele está pensando em pessoas que são salvas. Neste caso particular ele tem em mente crentes judaicos. Tudo que a objeção de Blomberg prova é que Paulo não está se referindo a todos os cristãos, mas seu comentário dificilmente prova que Paulo agora usa a frase “filhos de Deus” ou “filhos da promessa” para se referir simplesmente à recepção de promessas terrenas. Paulo tipicamente usa três frases para descrever aqueles que são parte da comunidade redimida, e o contexto específico de Romanos 9 representa um estreitamento do termo no sentido de que os cristãos judaicos também podem ser designados como “filhos de Deus” e “filhos da promessa”. Paulo limita ele mesmo para descrever os judeus que são “filhos de Deus” e “filhos da promessa” por causa do assunto específico que ele está examinando— a saber, a falha de muitos em Israel de crer (9:1-5). Colocando de outra forma: o conjunto maior dos “filhos de Deus” e “filhos da promessa” inclui todos aqueles que creem, ambos judeus e gentios. Mas aqui em 9.8, por conta do assunto específico em sua mente, Paulo se refere a um subconjunto dos “filhos de Deus” dentro do conjunto maior. O fato de ele se referir a um subconjunto dentro do conjunto maior daqueles que são designados os filhos de Deus não prova logicamente o ponto de Blomberg de que os “filhos de Deus” não se refere a salvação aqui. Na verdade, tanto o contexto mais estreito de Romanos 9-11 quanto o uso paulino da frase indica que a salvação está na mente de Paulo.

[10] Outro argumento em favor da ideia de que Paulo tem a salvação em mente m Romanos 9 é a conexão entre 8.28-39 e 9.1-11.36. Em 8.28-39 Paulo afirma que aqueles que foram predestinados para a salvação serão glorificados, que Deus dará a eles todas as coisas, que ninguém acusará os eleitos de Deus, e que nada os separará do amor de Cristo. Mas como os crentes podem contar com essas grandes promessas salvadoras em 8.28-39 se as promessas de Deus a Israel não foram cumpridas? Se as promessas salvíficas feitas a Israel vieram a nada, então as promessas salvíficas feitas a igreja podem da mesma forma. Ao afirmar que Deus cumprirá suas promessas a Israel, Paulo também garante a igreja de que as promessas feitas em 8.28-39 se concretizarão. A ligação entre 8.28-39 e os capítulos 9-11 sugere que as promessas salvíficas de Deus são o que Paulo tem em mente. Para este mesmo assunto veja W. D. Davies, "Paul and the People of Israel," NTS 24 (1977-78) 13.


Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Thomas R. Schreiner, “Does Romans 9 Teach Individual Election Unto Salvation? Some Exegetical And Theological Reflections” in Journal of the Evangelical Theological Society JETS 36:1 (Mar 1993).
 


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