sexta-feira, 11 de julho de 2014

ROMANOS 9 ENSINA ELEIÇÃO INDIVIDUAL PARA A SALVAÇÃO? ALGUMAS REFLEXÕES EXEGÉTICAS E TEOLÓGICAS (PARTE III)



 Por Thomas Schreiner 

II. SALVAÇÃO CORPORATIVA OU INDIVIDUAL?

            A segunda objeção (ligada à primeira para muitos eruditos) a uma leitura calvinista de Romanos 9 é que ainda que o capítulo se refira à salvação, ele descreve a salvação de grupos, não a salvação de indivíduos. [1] Assim, William Klein diz que “a preocupação de Paulo é o povo eleito de Deus, uma entidade corporativa.”[2] Leon Morris diz: “Parece claro que Paulo pretende uma referência a nações em vez de indivíduos.”[3] Esta afirmação é sustentada ao mostrar que Paulo está pensando na nação dos Edomitas em contraste a Israel (Gn 25.13). Assim, Cranfield diz: “Não há dúvida de que a preocupação de Ml 1.2-5 é com as nações de Israel e Edom, e é natural supor que por “Jacó” e “Esaú” também se entende não apenas os filhos gêmeos de Isaque, mas também os povos descendentes deles.”[4] Aqueles que enfatizam que a eleição é corporativa em vez de individual sustentam que esta distinção ajuda a ver que Deus não elege alguns indivíduos para a salvação e rejeita outros.

            Esta segunda objeção a uma leitura calvinista de Romanos 9 tem convencido muitos eruditos. No entanto, eu argumentarei que a eleição que Paulo descreve nesta passagem é tanto corporativa quanto individual e que uma referência a primeira não exclui a última. Quatro linhas de argumento convergem para sustentar esta tese.

1. A evidência de que a eleição individual também está na mente de Paulo é encontrada em Rm 9.15 onde ele cita Ex 33.19: “Respondeu-lhe o Senhor: Eu farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o meu nome Jeová; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem me compadecer.” A palavra “de quem” (hon) é singular, indicando que indivíduos específicos por quem Deus tem misericórdia estão em vista. O singular também está presente na inferência que Paulo faz de Rm 9.15 no 9.16. A misericórdia de Deus não depende “de quem quer, nem de quem corre.” A conclusão a tudo de 9.14-17 no 9.18 utiliza o singular uma vez: “Ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer.” 9.19 continua o pensamento na mesma linha: “Quem (tis) resiste à sua vontade?” E Paulo também usa o singular quando ele fala de um vaso sendo feito para honra e outro para desonra (9.21). Aqueles que dizem que Paulo está apenas se referindo a grupos corporativos não têm uma explicação adequada quanto ao por que de Paulo usar o singular repetidamente em Romanos 9.

2. A seleção de um remanescente de Israel (Rm 9.6-9; 11.1-6) também envolve a seleção de certos indivíduos de um grupo corporativo maior. É claro que o remanescente é um grupo menor dentro de um grupo maior. Não se deve concluir, porém, que desde que o remanescente é composto de um grupo de pessoas que indivíduos não estão em vista. Paulo usa a si mesmo como um exemplo de alguém que é parte do remanescente (11.1). Claramente Paulo é um indivíduo que foi salvo, e ele ainda faz parte do remanescente. A eleição do remanescente para a salvação e a eleição de indivíduos que compõem aquele remanescente não são mutuamente exclusivos. Eles pertencem um ao outro.

3. Romanos 9.30-10.21 levanta fortemente dúvidas sobre a tese de que Paulo está falando apenas de grupos corporativos em Romanos 9-11 e não se referindo a indivíduos. Os calvinistas às vezes têm sido criticados por não considerar tudo de Romanos 9-11 na formulação de sua doutrina da eleição.[5] Mas aqueles que esposam a visão de que Paulo está falando apenas sobre realidades corporativas em Romanos 9-11 são inconsistentes com sua posição em 9.30-10.21. Nós já vimos que todos concordam que Romanos 9-11 é uma unidade e que é uma tentativa de mostrar que a palavra de Deus com referência a Israel não falhou. Mas se a referência a Israel em Romanos 9-11 é apenas corporativa, então a falha de Israel em obter a lei da fé e seu esforço em ser justo pelas obras (9.30-10.8), deve ser exclusivamente um problema corporativo e não um individual. Mas nenhum intérprete dos quais eu conheço tem dito que o esforço de Israel em ser justificado pelas obras foi apenas um problema corporativo. Indivíduos específicos dentro de Israel são condenados porque eles têm procurado estabelecer sua justiça com base nas obras em vez de se submeterem à justiça que vem de Deus, enquanto outros indivíduos— isto é, aqueles que compõem o remanescente—     são salvos pela fé.

            Agora Paulo diz que “Israel” (9.31; 10.19) como um todo ou como uma entidade corporativa falhou em obter a justiça de Deus. É claro que ele não está pretendendo dizer que este é o caso com cada indivíduo único dentro do Israel étnico, pois em outro lugar nos é dito que há um remanescente do Israel étnico que é salvo (9.6-9; 11.1-6). Seu ponto é que a maioria do Israel étnico tropeçaram na pedra de tropeço e falharam por não crer em Cristo (9.32-33). Nós podemos concluir, então, que Paulo está falando do Israel corporativo em 9.30-10.21, mas o que ele diz sobre Israel corporativamente é também verdade de Israelitas individuais. Ninguém pode legitimamente dizer que Paulo está simplesmente descrevendo Israel corporativo mas não israelitas individuais.

            O restante de Romanos 10 prova que não se pode separar o Israel corporativo dos israelitas individuais. Repetidamente Paulo enfatiza que se deve exercitar fé para ser salvo (10:4, 5, 6, 8, 9, 10, 11, 14, 17). Obviamente Paulo pode falar de Israel como um todo da falha porque muitos dentro de Israel não tiveram a fé exercitada (10.19). Mas ninguém diria que a falha de exercitar fé foi apenas um problema de grupo e não um problema individual. Não se pode separar a conexão entre indivíduos e grupos.

            A conclusão que eu quero chegar é esta: se é inapropriado estabelecer uma distinção entre indivíduos e grupos em Rm 9.30-10.21, então não parece haver base exegética para o estabelecimento de tal distinção em 9.1-29 ou 11.1-36. Os três capítulos são uma unidade, e a referência a Israel não oscila entre uma referência apenas ao Israel corporativo nos caps. 9 e 11 e então se referem tanto a indivíduos como grupos no cap. 10. A referência a Israel deve ser interpretada consistentemente nos três capítulos. Paulo está descrevendo Israel corporativamente, mas o grupo corporativo também envolve indivíduos.[6] Assim Romanos 9 e 11 descrevem a eleição do Israel corporativo para a salvação, mas esta eleição do Israel corporativo por definição também inclui a eleição de alguns indivíduos dentro de Israel. 

4. Dizer que a eleição envolve a seleção de um grupo em vez de outro levanta outro problema que merece uma explicação detalhada. A maioria dos eruditos que afirmam que a eleição é corporativa argumenta que a fé pessoal é a razão última e decisiva pela qual algumas pessoas são salvas em vez de outras. Os calvinistas, por outro lado, afirmam que a fé é o resultado da obra “predestinadora” de Deus. Mas aqueles que optam pela eleição corporativa acham que eles têm uma concepção melhor do que os calvinistas, e ao mesmo tempo eles podem manter que a fé é o que finalmente determina a salvação de alguém. Agora, me parece que há uma falha neste raciocínio que é fatal para aqueles que esposam a eleição corporativa. Se Deus corporativamente escolhe algum povo para a salvação, e a eleição de um grupo em vez de outro foi decidida antes de qualquer grupo vir à existência (9.11), e isto não foi baseado em nenhuma obra que este grupo fez ou qualquer ato da vontade deles (9.11-12, 16), então parece seguir-se que a fé do grupo salvo seria dom de Deus dado antes da fundação do mundo. Mas se a fé de qualquer entidade corporativa depende da obra “predestinadora” de Deus, antão a fé individual não é decisiva para a salvação. O que é decisivo seria a eleição de Deus do grupo. Em outras palavras, o grupo eleito necessariamente exerceria fé desde que Deus escolheu esta entidade corporativa.

            Mas se o que eu tenho dito acima é correto, então um dos grandes atrativos do ponto de vista corporativo da eleição desaparece. Muitos consideram a eleição corporativa atraente porque Deus não parece tão arbitrário em eleger alguns ara a salvação e passar por alto outros. Mas se a eleição corporativa é eleição para a salvação, e se essa eleição determina quem será salvo, então Deus não é menos arbitrário. Dificilmente satisfaz dizer que Deus não escolheu alguns indivíduos para serem salvos e passado por alto outros mas que é verdade que ele escolheu um grupo para ser salvo e passado por alto outro grupo.

            Aqueles que defendem a eleição corporativa, porém, objetariam, e eu penso que a razão é que eles realmente não defendem a eleição corporativa de um grupo ou de pessoas de forma alguma. Quando aqueles que advogam a eleição corporativa dizem que Deus escolheu “a igreja”, “um grupo” ou uma “entidade corporativa”, eles não estão na verdade dizendo que Deus escolheu quaisquer indivíduos que compõo dem um grupe forma alguma.[7] As palavras “igreja” e “grupo” são na verdade uma entidade abstrata ou um conceito que Deus escolheu. Aqueles que se tornam parte daquela entidade são aqueles que exercitam a fé.[8] Deus simplesmente escolheu haver uma “coisa” chamada a Igreja, e então ele decidiu que todos que colocariam a sua fé em Cristo se tornariam parte da Igreja. Em outras palavras, a escolha de um povo ou um grupo não significa que Deus escolheu um grupo de pessoas em vez de outro, de acordo com aqueles que defendem a eleição corporativa. Deus escolheu permitir a existência da entidade chamada “a Igreja”, a qual todo corpo seria povoado por aqueles que colocam sua fé em Cristo e então se tornam parte daquela entidade.

            Se a eleição corporativa envolve a seleção de uma entidade abstrata como a Igreja, e então as pessoas decidem se exercitam ou não a fé e assim se tornam parte da Igreja, parece seguir-se que a seleção da Igreja não envolve a seleção de quaisquer indivíduos ou grupo de forma alguma. Em vez disso Deus determinou antes do tempo que haveria uma “coisa” chamada Igreja e que aqueles que exercitassem a fé seriam parte dela. O problema com esta visão, porém, é que a igreja não é uma entidade abstrata ou um conceito. Ela é composta de pessoas. Na verdade, o texto bíblico deixa isto claro repetidamente que a eleição envolve a seleção de pessoas, não de um conceito. Por exemplo: “Nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (Ef 1.4); “Deus escolheu as coisas loucas... e Deus escolheu as fracas... e Deus escolheu as ignóbeis e as desprezadas” (I Co 1.27-28); “Deus vos escolheu desde o principio para a salvação” (2 Ts 2.13; cf. também Rm 9.23- 25; 11.2; 2 Tm 1.9). O ponto que eu estou tentando fazer é que aqueles que defendem a eleição corporativa não acentuam o suficiente que Deus escolheu um grupo de pessoas, e se ele escolheu um grupo de pessoas (e não apenas um conceito ou uma entidade abstrata) em vez de outro grupo, então (como nós vimos acima) a visão corporativa da eleição não faz Deus menos arbitrário do que a visão daqueles que dizem que Deus escolheu certos indivíduos.
           

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Thomas R. Schreiner, “Does Romans 9 Teach Individual Election Unto Salvation? Some Exegetical And Theological Reflections” in Journal of the Evangelical Theological Society JETS 36:1 (Mar 1993).


[1] Badenas, Christ the End 85; C. Pinnock, "From Augustine to Arminius: A Pilgrimage in Theology," The Grace of God, The Will of Man (ed. C. H. Pinnock; Grand Rapids: Zondervan, 1989) 20.

[2] W. W. Klein, The New Chosen People: A Corporate View of Election (Grand Rapids: Zondervan, 1990) 166; cf. also pp. 173-175.

[3] Morris, Romans 356; cf. também seus comentários nas pp. 345, 354, 363. Forster e Marston dizem: “As pessoas falham frequentemente em entender que nesta seção inteira o apóstolo está falando sobre nações e não sobre indivíduos” (God's Strategy 59).

[4] Cranfield, Romans 479-480; cf. também pp. 450, 489.

[5] Cranfield, Romans 479-480; cf. também pp. 450, 489.

[6] Alguém poderia objetar que isto abre a porta para o universalismo uma vez que Rm 11.32 diz que “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos.” Alguém poderia concluir que se “todos” se refere tanto a grupos corporativos quanto indivíduos, então todo indivíduo será salvo. Mas nós já vimos em 9.30-10.21 que Paulo retrata Israel como um todo como descrente no evangelho sem sugerir que todo individuo israelita não é salvo. Assim o “todos” em 11.32 certamente se refere a um grupo composto de indivíduos, mas é infundado (dado que Paulo diz em outro lugar em Romanos 9-11) entender este “todos” se refere a cada indivíduo singular.

[7] Eu penso que esta é uma clara dedução da discussão de Klein (Chosen People 176-184) da eleição.

[8] Klein, Chosen People 182.

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