segunda-feira, 14 de julho de 2014

ROMANOS 9 ENSINA ELEIÇÃO INDIVIDUAL PARA A SALVAÇÃO? ALGUMAS REFLEXÕES EXEGÉTICAS E TEOLÓGICAS (PARTE IV)



Por Thomas Schreiner
            

            Uma analogia pode ajudar aqui.[29] Suponha que você diga: “Eu vou escolher comprar um time de baseball profissional.” Isto faz sentido se você então compra o Minnesota Twins ou o Los Angeles Dodgers. Mas se você faz isto, você escolhe os membros daquele time específico sobre outros jogadores individuais em outros times. Não faz sentido dizer: “Eu vou comprar um time de baseball profissional” que não tem membros, sem jogadores, e então permite que quem desejar vir jogar no time. No último caso, você não escolheu um time. Você tem escolhido que haja um time, a composição do que está totalmente fora do seu controle. Então escolher um time requer que você escolha um time entre outros juntamente com os indivíduos que o compõem. Escolher que haja um time não implica na escolha de um grupo sobre outro, mas apenas que um grupo pode formar em um time se eles quiserem. O ponto da análogia é que se há realmente tal coisa como a escolha de um grupo específico, então a eleição individual está implicada na eleição corporativa.

            Aqueles que esposam a eleição corporativa poderiam contra-atacar, porém, ao enfatizar que a eleição é “em Cristo” (Ef 1.4).[30] A ideia então é que Jesus Cristo é o único a quem Deus elegeu, e ele elegeu um grupo corporativo, a igreja, para estar em Cristo.[31] Forster e Marston dizem: “Nós somos escolhidos em Cristo. Isto não significa que nos fomos escolhidos para sermos colocados em Cristo. Isto significa que quando nós nos arrependemos e nascemos de novo no corpo de Cristo, nós participamos do seu povo eleito.”[32] Algumas coisas deveriam ser ditas em resposta a esta interpretação. Primeiro, o texto não diz especificamente que Cristo foi eleito. O objeto do verbo “escolher” é “nos” em Ef 1.4. É incorreto ver a ênfase na eleição de Cristo enquanto que o verso enfatiza a eleição de pessoas.[33] E desde que Ef 1.4 diz que “nós fomos escolhidos antes da fundação do mundo”, não há evidência de que a escolha foi baseada em nossa fé prevista. Afirmar (como Forster e Marston fazem) que a fé das pessoas é decisiva inverte a ênfase do texto, pois Ef 1.4 (e tudo de 1.3-14) tem como foco a obra de Deus, e assim inserir a fé no verso é contrabandear uma ideia que não é afirmada. Além disso, Rm 9.11-13 confirma o que nós temos sugerido de Ef 1.4— a saber, que a fé é o resultado de ser escolhido.

            Segundo, quando o texto diz “nos escolheu nele” isto provavelmente significa que Deus escolheu que a igreja experimentaria a salvação “através de Cristo”. Ele é o agente e a pessoa através de quem a obra eletiva de Deus se concretizaria. Quando Deus planejou salvar alguns, ele pretendeu desde o início que a salvação deles seria efetivada através da obra de Cristo. Terceiro, assim me parece que aqueles que enfatizam que a eleição é “em Cristo” acabam negando que Deus escolheu um grupo corporativo em qualquer sentido significante. Tudo o que a escolha de Deus de um grupo corporativo significa é que Deus escolheu que todo aquele que pusesse sua fé em Cristo seria salvo. Aqueles que colocassem sua fé em Cristo seriam designados a Igreja.

            Aqueles que defendem a eleição corporativa estão conscientes do fato de que é difícil separar eleição corporativa de eleição individual, pois a lógica pareceria requerer que os indivíduos que compõem um grupo não podem ser separados do próprio grupo. Klein responde dizendo que isto equivale a uma imposição de categorias ocidentais modernas sobre os escritores bíblicos.[34] Ele prossegue dizendo que isto requer uma “lógica que é alheia ao pensamento deles.”[35] Clark Pinnock também diz que a visão arminiana é mais atrativa porque ela está “no processo de aprender a ler a Bíblia de um novo ponto de vista, que eu acredito que é mais verdadeiramente evangélico e menos racionalista.”[36]  Aqueles que não conseguem ver como a eleição é corporativa sem também envolver indivíduos têm sido vítimas à imposição da lógica ocidental sobre a Biblia.

            Eu devo confessar que esta objeção me parece altamente irônica. Por exemplo, Klein também diz que não faz sentido para Deus pleitear para Israel ser salvo (Rm 10.21) se ele elegeu apenas alguns para serem salvos. [37] Mas esta objeção certamente parece ser baseada na assim chamada lógica ocidental. Klein parece não conseguir entender logicamente como ambos podem ser verdadeiros, e então ele conclui que a eleição individual não é crível. Ele já considerou que ele poderia estar forçando a lógica ocidental sobre o texto e que ambos poderiam ser verdadeiros de uma forma que nós não compreendemos totalmente? Na verdade, alguém poderia afirmar que o foco na escolha individual como finalmente determinante na salvação é baseada na lógica “ocidental” enquanto que ela se concentra no indivíduo e a escolha individual dele ou dela. E na mesma página que Pinnock diz que ele está escapando do racionalismo, ele diz que ele não pode crer que “Deus determina todas as coisas e que a liberdade é real” porque esta visão é contraditória e incoerente. Ele prossegue dizendo que “a lógica do calvinismo consistente faz Deus o autor do mal e lança sérias dúvidas sobre sua bondade.”[38] Esses tipos de afirmações de Pinnock certamente parecem refletir uma dependência da lógica ocidental.”

            A maioria dos calvinistas afirmaria que a lógica não deveria ser descartada, mas eles também afirmariam que a relação entre soberania divina e responsabilidade humana é finalmente um mistério. A admissão do mistério demonstra que os calvinistas não são dominados pela lógica ocidental. Na verdade me parece que aqueles que insistem que a liberdade humana e a fé individual deve excluir a determinação divina de todas as coisas são aqueles que acabam subscrevendo as categorias da lógica ocidental. 

            Meu próprio ponto de vista do papel da lógica precisa ser esclarecido aqui de forma que o que eu tenho dito não seja mal interpretado. A lei da não contradição não foi inventada por Aristóteles. Ela foi articulada e defendida por ele e é característica de todo pensamento e discurso humanos. O que é contraditório não pode ser verdadeiro. Assim, é legitimo perguntar se uma posição teológica particular é contraditória ou ilógica. A lei da não contradição não pode ser descartada como ocidental, em minha opinião, pois todas as pessoas intuitivamente sentem que o que é contraditório não pode ser verdadeiro. Isto explica porque Klein e Pinnock revertem para a lei da não contradição mesmo enquanto afirmando que eles estão se livrando da lógica ocidental.

            No entanto, subscrever a lei da não contradição não significa que a lógica pode resolver todo problema na teologia. Há momentos quando a escritura fortemente afirma duas realidades que não podem finalmente ser resolvidas por nós. Por exemplo, as doutrinas da trindade e das duas naturezas de Cristo em uma pessoa são construções teológicas que são corretamente derivadas da Bíblia, e ainda assim nós não podemos finalmente explicar como pode haver três pessoas e ainda um único Deus. Isto não significa que a doutrina da trindade é irracional. Isto significa que ela está acima de nossas capacidades racionais. Tais mistérios deveriam apenas ser adotados se isto é onde a evidência bíblica leva. Eu acredito que a evidencia bíblica nos compele a ver tal mistério no caso da eleição divina e responsabilidade humana. Por um lado, um mistério não é requerido no caso da eleição corporativa, e assim não há necessidade de postular uma descontinuidade entre eleição corporativa e individual. Na verdade, a eleição individual não pode ser descartada, uma vez que ela é ensinada em muitos textos (Jo 6.37, 44-45, 64-65; 10.26; At 13.48; 16.14; etc.).
 
            A exegese bíblica requer de nós, então, ver uma mistério no caso da eleição divina e da responsabilidade humana. Romanos 9 ensina que Deus elege indivíduos e grupos para a salvação, e ele determina quem exercerá fé. No entanto, Rm 9.30-10.21 nos ensina que aqueles que não exercem fé são responsáveis e deveriam ter feito assim. Como podem ambas as informações ser logicamente verdadeiras? Nós não podemos compreender totalmente a resposta a esta questão, como com outros mistérios na escritura nós afirmamos que nossas mentes humanas não podem compreender adequadamente o sentido completo da revelação divina.
III. CONCLUSAO

            Neste artigo eu explorei se duas das principais objeções a uma exegese calvinista de Romanos 9 são persuasivas. As objeções são (1) que Romanos 9 não se refere a salvação mas ao destino histórico de Israel e seu papel na historia temporal e (2) que a eleição descrita em Romanos 9 não é uma eleição individual para a salvação mas é corporativa. Eu argumentei que nenhuma das duas objeções funciona. A primeira falha porque o contexto inteiro de Romanos 9-11 trata da salvação de Israel. Quando Paulo introduz os capítulos em 9.1-5 ele deixa claro que ele quase estaria disposto a ser amaldiçoado porque seus parentes de Israel não são salvos. É esta a questão da salvação de Israel (ou a ausência dela) que informa os três capítulos. Desde que o assunto especifico que introduz Romanos 9-11 se refere a salvação, é bastante improvável que Paulo inserisse uma discussão no capítulo 9 sobre as promessas terrenas dadas a Israel e então de repente volta ao assunto principal da salvação em 9.30-11.36.

            A segunda objeção a leitura calvinista de Romanos 9 também falha em convencer porque a eleição corporativa e individual são inseparáveis. Os recipientes da obra eletiva de Deus são frequentemente referidos no singular no capitulo 9, e a seleção de uma remanescente implica que alguns indivíduos foram escolhidos de um grupo maior. Além disso, aqueles que defendem a eleição corporativa afirmam que os capítulos 9 e 11 se referem ao Israel corporativo, enquanto que Paulo fala de israelitas individuais no capítulo 10. Não há justificativa exegética para tal mudança. Isto parece ser devido a um viés filosófico que não consegue entender como indivíduos podem ainda ser responsabilizados se a eleição divina é verdadeira. Além disso, aqueles que defendem a eleição corporativa são vagos em sua própria descrição do que a eleição corporativa envolve. A forma como a eleição corporativa é definida torna duvidoso que eles estejam descrevendo a eleição de um grupo. Eu concluo, então, que a visão calvinista de que Deus escolheu indivíduos para serem salvos é mais convincente exegetica e teologicamente.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Thomas R. Schreiner, “Does Romans 9 Teach Individual Election Unto Salvation? Some Exegetical And Theological Reflections” in Journal of the Evangelical Theological Society JETS 36:1 (Mar 1993).



[29] Esta analogia foi sugerida a mim por Bruce Ware.

[30] Klein, Chosen People 179-180; Forster and Marston, God's Strategy 97 131-132.

[31] Eu estou distinguindo este ponto de vista daquele de K. Barth (Church Dogmatics II.2.1-506), pois a visão de Barth parece levar ao universalismo. A própria exegese de Cranfield (Romans 448-450) tem sido decisivamente influenciada por Barth. P. K. Jewett eficazmente critica a visão Barthiana (Election and Predestination [Grand Rapids: Eerdmans, 1985] 47-56). 

[32] Forster and Marston, God's Strategy 97.

[33] Contra M. Barth, Ephesians (AB; Garden City: Doubleday, 1974) 1.107-108.

[34] Klein, Chosen People 264; cf. also p. 260.

[35] Ibid. 264.

[36] Pinnock, "Augustine" 21. Ele continua, “É claro, haverá alguma nostalgia quando nós deixarmos para trás logicamente e lindamente o estreito sistema de teologia determinista” (p. 28, itálicos meus).

[37] Klein, Chosen People 267.

[38] Pinnock, "Augustine" 21 (itálicos meus).

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