segunda-feira, 7 de julho de 2014

ROMANOS 9 ENSINA ELEIÇÃO INDIVIDUAL PARA A SALVAÇÃO? ALGUMAS REFLEXÕES EXEGÉTICAS E TEOLÓGICAS (PARTE II)



Por Thomas Schreiner
           
4. Um argumento convincente contra a visão de que Paulo está simplesmente discutindo o destino histórico das nações é o amplo contexto de Romanos 9-11. É comumente consensual entre os eruditos do NT que estes capítulos são uma unidade e deveriam ser interpretados como tal.[11] Se é assim, então é improvável que Paulo trate de uma questão em 9.1-29 e então se mova para uma questão inteiramente separada em 9.30-11.36. O ponto que eu estou tratando é que se o contexto subsequente de Romanos se refere à salvação de Israel (e gentios), é provável que o contexto anterior (9.1-29) também se refere. O argumento é como se segue:

            Quando Paulo diz em 9.30-33 que Israel falhou em obter justiça pela lei porque ela não buscou a lei “da fé, mas como que das obras,” é eminentemente claro que ele está se referindo à falha de Israel em atingir firmeza com Deus. Eu não conheço nenhum erudito que mantenha que Paulo está falando simplesmente de promessas terrenas as quais Israel falhou em obter.

            O assunto da salvação de Israel ou a ausência disso continua no capítulo 10, pois Paulo informa ao leitor que sua oração a Deus é pela “salvação de Israel” (10.1). A expressão do desejo de Paulo por Israel em 10.1 é paralelo a sua angústia por Israel em 9.1-3, e em ambos os textos a preocupação do coração de Paulo é que Israel não é salvo, que ele está separado de Cristo (9.3). Em outras palavras, desde que os capítulos 9 e 10 ambos começam com a mesma preocupação (muitos em Israel não são salvos), é muito improvável que o capítulo 9 se refira simplesmente a promessas terrenas para Israel enquanto o capítulo 10 fala de sua falha em obter salvação. Os dois capítulos deveriam ser tomados juntos (juntamente com o capítulo 11) tanto como uma resposta quanto a por que muitos em Israel não estão presentemente salvos.

            A falha de Israel em obter a salvação e a inclusão dos gentios no povo de Deus continua nos versos subsequentes. Israel tentou estabelecer sua própria justiça (10.3), e assim ele não experimentou a justiça que vem de Deus. Paulo está se referindo ao fato de que Israel não foi salvo porque ele tentou estabelecer sua justiça pelas obras (10.4-8). E que Paulo tem a salvação em mente é confirmado pelos versos 10.9-19, pois o verso 9 diz que aqueles que confessam e creem em Jesus “serão salvos”. Na verdade, Paulo afirma que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (10.13). O problema de Israel é que ele não “obedeceu ao evangelho” (10.16), e assim os gentios se tornaram recipientes da salvação para provocar Israel ao ciúme (10.19).

            Romanos 11 confirma a ideia de que tudo de Romanos 9-11 deveria ser entendido como respondendo a questão sobre       o cumprimento das promessas de Deus em relação a salvação de Israel, desde que Paulo se apresenta como uma ilustração de uma remanescente salvo (11.1-10). Paulo não apresenta o conceito de remanescente a fim de dizer que as promessas terrenas dadas a Israel estão vindo se concretizar no remanescente. Seu ponto é claramente que Deus não abandonou seu povo Israel, porque ele está salvando uma porção deles.

            Deveria ser considerado que alguns dos temas desenrolados em 11.1-10 lembram o leitor do que Paulo disse em 9.6b-29. Ambas as passagens se referem a Deus selecionar um remanescente do Israel étnico (9.6b-13, 27-29; 11.2-5), a eleição de alguns (9.11-13, 24-26; 11.5-7) e ao endurecimento de outros (9.17-18; 11.7-10). Supostamente ambas as passagens falam sobre a mesma questão— a saber, a salvação de Israel.

            Paulo não está simplesmente falando de promessas terrenas ou do destino temporal de Israel 11.11-32. A questão toda da ilustração da oliveira é que Deus pode enxertar na árvore aqueles judeus que tem descrido (cf. 11.23).[12] O enxerto dos gentios na oliveira demonstra que a salvação está em vista, pois eles não foram feitos portadores das promessas terrenas dadas a Israel, mas foram salvificamente feitos parte do povo de Deus. Além disso, a passagem tem seu clímax com a revelação do mistério de que “todo Israel será salvo” (11.26). O significado específico deste verso é debatido, mas não há dúvida de que Paulo está aqui descrevendo a salvação de Israel do pecado.

            Parece claro que 9.30-11.36 se refere à salvação de Israel, mas me parece que as implicações deste fato precisam estar ligadas a 9.1-29.  Dado o fato de que Romanos 9-11 é uma unidade, que não há razão de achar que sua principal preocupação mude, e que há evidência específica de que a preocupação de Paulo é com a salvação de Israel em 9.1-29, não é surpreendente que Paulo descreveria em 9.30-11.36 por que Israel falha em obter a salvação. É bastante improvável que em um contexto Paulo está simplesmente discutindo o destino temporal de Israel (9.6b-29) e que então na passagem seguinte ele de repente começa a explicar por que Israel falhou em obter a salvação (9.30-11.36). A unidade do texto é tal que tudo de Romanos 9-11 constitui a resposta de Paulo quanto a como a palavra de Deus não falhou com referência às promessas de salvação para Israel, embora muitos em Israel não creram em Jesus como o Messias.

            Os quatro argumentos que eu tenho descrito acima sugerem que a salvação de Israel está em vista em toda a porção de Romanos 9-11, mas a objeção mais forte à interpretação apresentada aqui é que o uso do texto do AT mostra que a salvação individual não está em vista em 9.6-21.[13] Os textos do AT que Paulo cita não se referem, de acordo com alguns eruditos, em seus contextos históricos à reprovação (condenação) de indivíduos. Então, é afirmado, não há evidência clara de que Ismael, Esaú e Faraó foram condenados. Na verdade, é considerado que Esaú foi reconciliado com seu irmão, mostrando que ele foi salvo (Gn 33).

            Blomberg afirma que não há dúvida de que Gn 25.23 e Ml 1.2 se referem apenas a bênçãos temporais para nações e não salvação.[14] Sem entrar em detalhes eu gostaria de registrar minha hesitação em pensar que Gênesis e Malaquias se preocupem simplesmente com questões temporais. Bênçãos temporais e salvíficas não podem ser separadas tão facilmente no AT.[15] A indignação permanente do Senhor contra o perverso Edom em Ml 1.4 sugere que Edom não é parte do povo salvo de Deus.[16] A promessa da herança provavelmente se refere tanto a salvação como às bênçãos temporais.

            Mas ainda que estes eruditos estivessem certos em dizer que os textos do AT se referem às bênçãos temporais, não segue necessariamente que estes textos se refiram apenas ao destino histórico quando empregados por Paulo. A questão chave é como os textos são usados no contexto específico de Romanos 9-11. A questão na mente de Paulo não é,   como nós temos visto, as promessas terrenas dadas a Israel. Ele está quase disposto a ser amaldiçoado e separado de Cristo por causa de seus irmãos que não são salvos (9.3; 10.1). É a questão da salvação de Israel que preocupa Paulo em todo o livro de Romanos 9-11.

            Mas se os textos do AT empregados em Romanos 9 se referem ao destino histórico das nações no AT, como nós podemos explicar o fato de Paulo usar estes mesmos textos em um contexto que se refere à salvação? Ele não contradiz o ensino dos textos do AT em seus contextos históricos? Não necessariamente. Quando os escritores do NT usam o AT, eles na maioria das vezes não pretendem fornecer o significado do texto do AT em seu contexto histórico. A significância do AT pode ser aplicada a novas situações na vida da igreja. Por exemplo, Paulo usa Isaque e Ismael em outro contexto (Gl 4.21-31) para ilustrar que os filhos da mulher livre são herdeiros, não os filhos da mulher escrava. Praticamente todos os eruditos concordam que Paulo está partindo do significado histórico do AT neste último texto e que ele está usando Isaque e Ismael para descrever aqueles que são salvos e não salvos. Este exemplo é particularmente esclarecedor porque Isaque e Ismael estão também em vista em Rm 9.6-9. Desde que eles são usados para ilustrar questões pertencentes à salvação em Gálatas 4, tal uso é também possível em Romanos 9.

            Mas contra o que tem acabado de ser dito, alguém poderia objetar que Gl 4.24 especificamente diz que o texto do AT está sendo usado alegoricamente. E Blomberg afirma: “Se um texto do NT pode fazer sentido à luz do significado claro das passagens do AT que ele cita, então ninguém deveria complicar o assunto ao introduzir novas interpretações.”[17] Este princípio interpretativo, porém, não é adequado. Quase todo uso de um texto do AT no NT pode fazer sentido ao interpretá-lo de acordo com o significado do AT.[18] A questão, entretanto, é se tais interpretações produzem o sentido mais plausível. Tal princípio provavelmente limita demais o uso do AT no NT. Um princípio melhor é determinar primeiro o que melhor faz sentido no contexto no qual a citação do AT é usada, pois os escritores do NT frequentemente aplicam textos do AT para novas situações.

            Em qualquer caso não seria surpreendente se Paulo usasse Esaú como uma ilustração de uma pessoa não salva (Rm 9.11-13) uma vez que o escritor de Hebreus parece usá-lo como um exemplo de uma pessoa (Hb 12.16) que não foi salva. E ainda que Esaú fosse salvo, o autor de Hebreus está usando sua renúncia ao direito de nascimento como uma ilustração para advertir a igreja  sobre o perigo da apostasia. Em outras palavras, se para o bem do argumento nós asseguramos que Esaú foi salvo, então o autor de Hebreus emprega sua rejeição das bênçãos temporais como uma ilustração do perigo de abandonar a eterna salvação. [19] A forma como Hebreus usa o exemplo de Esaú é extremamente importante como um argumento principal. Pois se Hebreus está dizendo que Esaú não foi salvo, então não seria surpreendente se Paulo chegasse a mesma conclusão em Romanos 9. Mas se ele foi salvo, então Hebreus não está citando o texto do AT de acordo com seu significado histórico, mas usa Esaú para levantar uma questão em relação a salvação dos leitores. Agora se Hebreus usa Esaú em tal estilo de ilustração, então há pelo menos um precedente para Paulo usar o AT da mesma forma.[20]

            Para concluir, a primeira objeção à leitura calvinista de Romanos 9 não é convincente, pois a questão na mente de Paulo em Romanos 9-11 não é simplesmente o destino histórico de Israel. O quês está em primeiro plano em sua mente é a questão da salvação de Israel.



[11] A unidade de Romanos 9-11 é um dado na erudição do NT. A mais recente erudição sobre esses capítulos não examina as questões teológicas investigadas neste artigo. Questões tais como a relação entre judeus e gentios na teologia de Paulo, a consistência dos capítulos, a luz que eles lançam sobre a situação romana, e sua visão do Israel étnico estão em primeiro plano da erudição do NT hoje. Para alguns exemplos representativos veja Longenecker, "Different Answers" 95-123; Campbell, "Freedom" 27-45; Badenas, Christ the End 81-96; M. A. Getty, "Paul and the Salvation of Israel: A Perspective on Romans 9-11," CBQ 50 (1988) 456- 469; E. J. Epp, "Jewish-Gentile Continuity in Paul: Torah and/or Faith? (Romans 9:1-5)," HTR 79 (1986) 80-90; N. Walter, "Zur Interpretation von Römer 9-11," ZTK 81 (1984) 172-195.
 
[12] Alguns eruditos têm dito recentemente que Paulo concebe a salvação de Israel sem requerer deles crer em Jesus como Messias (cf. ". Stendahl, Paul Among Jews and Gentiles and Other Essays [Philadelphia: Fortress, 1976] 4; F. Mussner, u 'Ganz Israel wird gerettet werden' (Rm 11.26)," Kairos 18 [1976] 241-255; L. Gaston, "Israel's Misstep in the Eyes of Paul," Paul and the Torah [Vancouver: University of British Columbia, 1987] 135-150). Mas esta interpretação tem corretamente sido refutada ((E. P. Sanders, "Paul's Attitude Toward the Jewish People," USQR 33 [1978] 175!187; F. Hahn, "Zum Verständnis von Römer 11.26a: ' . . . und so wird ganz Israel gerettet werden,'" Paul and Paulinism: Essays in Honour ofC. K. Barrett [ed. #. ". Hooker and S. G. Wilson; London: SPCK, 1982] 221!236; R. Hvalvik, "A 'Sonderweg* for Israel: A Critical Examination of a Current Interpretation of Romans 11.25-27," JSNT 38 [1990] 87-107).
[13] Veja Blomberg, "Election" 109!116.

[14] ibid. 109, 111.

[15] A objeção de Blomberg ("Election" 114-115) de que isto não funciona uma vez que tantos judeus do AT se rebelaram não é convincente. O fato de que nem todos os judeus étnicos são filhos da promessa é precisamente o ponto que Paulo está tratando em Rm 9.6-13. Nem todos os judeus étnicos são recipientes da promessa de salvação simplesmente porque eles são judeus étnicos. Sempre tem havido um processo peneira.

[16] Ao fazer esta declaração eu não estou afirmando que todo edomita individual foi fadado (reprovado). O ponto é que a maioria dos edomitas não foi salva, e assim uma declaração geral com respeito ao destino deles pode ser feita.

[17] Blomberg, "Election" 111.

[18] O esforço valente de W. C. Kaiser em mostrar que praticamente toda citação do AT no NT se encaixa com o significado original do texto do AT {The Uses of the Old Testament in the New Testament [Chicago: Moody, 1985]). O problema com o ponto de vista de Kaiser não é que suas propostas específicas não fazem sentido. A questão é se suas soluções são plausíveis. Elas frequentemente são, mas me parece que um entendimento mais complexo do relacionamento entre os testamentos deveria ser adotado. Por uma solução que é mais satisfatória do que a de Kaiser veja D. J. Moo, "The Problem of Sensus Plenior," Hermeneutics, Authority, and Canon (ed. D. A. Carson and J. D. Woodbridge; Grand Rapids: Zondervan, 1986) 179-211. Sobre o uso do AT no em Romanos 9-11 veja J. W. Aageson, "Scripture and Structure in the Development of the Argument in Romans 9- 11," CBQ 48 (1986) 265-289; "Typology, Correspondence, and the Application of Scripture in Romans 9-11," JSNT 31 (1987) 51-72; C. A. Evans, "Paul and the Hermeneutics of 'True Prophecy': A Study of Rom 9-11," Bib 65 (1984) 560-570; O. Hofius, "Das Evangelium und Israel. Erwägungen zu Römer 9-11," ZTK 83 (1986) 297-324.

[19] Para uma defesa da ideia de que o autor de Hebreus está advertindo aos leitores sobre a apostasia em Hb 12.14-17 veja P. E. Hughes, A Commentary on the Epistle to the Hebrews (Grand Rapids: Eerdmans, 1977) 536-541; D. A. Hagner, Hebrews (New York: Harper, 1983) 205-208; F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews (NICNT; Grand Rapids: Eerdmans, 1964) 364-368.

[20] É claro que a conexão entre o uso de Esaú em Hebreus e Romanos apenas se sustenta se o contexto de Romanos 9 também se refere a salvação. Mas eu já forneci um número de razões específicas para por que se refere a salvação.



Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Thomas R. Schreiner, “Does Romans 9 Teach Individual Election Unto Salvation? Some Exegetical And Theological Reflections” in Journal of the Evangelical Theological Society JETS 36:1 (Mar 1993).

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