terça-feira, 19 de agosto de 2014

ELEIÇÃO CORPORATIVA OU INDIVIDUAL?



Por Steve Hays

            Este tópico me lembra de algo que Bem Witterington escreveu: “Eleição é um conceito corporativo e indivíduos podem entrar ou sair do grupo eleito”.

            Isto nada mais é que um estratagema para contrariar a doutrina reformada da eleição individual, mas esta objeção é apenas verdadeira se a eleição é exclusivamente corporativa. Do contrário, nós estamos muito confortáveis em afirmar que a eleição é corporativa e individual. Então, o que ela é? A resposta reformada não é, contrário ao pensamento popular, que ela é individual e não corporativa. Em vez disso, afirmamos ambas. Por quê?

            Se você negar a eleição individual em Romanos 8.28, 29, então você é deixado com a afirmação de que todos aqueles pré-conhecidos são predestinados, chamados, justificados e glorificados como uma classe mas não como indivíduos. Porém, o arminianismo nega o chamado individual. O apelo à eleição corporativa para a exclusão de indivíduos não funcionará aqui. As pessoas aqui são um grupo, isto é verdade, mas todo indivíduo no grupo é incluído, enquanto outros de fora do grupo são excluídos. Este é o ponto do texto, que os eleitos estão em possessão de um dom precioso e poderoso que os outros não têm, não por outra razão senão a misericórdia de Deus. Além disso, Romanos 8 é particularista e individual. “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Rm 8.9). Paulo está falando para os eleitos e dos eleitos como um grupo, porque os próprios indivíduos são eleitos e têm o espírito santo de Deus. Deus pré-conhece e predestina indivíduos, chama indivíduos, justifica indivíduos e glorifica indivíduos. “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Romanos 8.35). Isto é apenas corporativo ou individual?

            E Efésios 1.4? Se a eleição é corporativa aqui, então você tem um exemplo clássico de falácia regressiva. O disputante fundamentará a sua afirmação em uma explicação que precisa, por sua vez, ser fundamentada, por exemplo, sua afirmação apenas move a questão um passo atrás. “Nos” é composto de indivíduos. A eleição corporativa é vã a menos que todos do grupo sejam eleitos. A eleição corporativa pressupõe eleição individual. “Escolher” aqui significa selecionar de um grupo, não selecionar um grupo abstrato cujos membros são completados depois. A objeção arminiana significa dizer que Deus escolheu Cristo e que qualquer um que escolhe Cristo está “em Cristo”. Ok, então por que alguém escolhe Cristo? O texto diz que Deus nos predestinou — não Cristo, mas os indivíduos — para ser adotados como seus filhos através de Jesus Cristo.

            Em ambos os exemplos, o contestador falha em compreender que nações não são descritas como salvificamente chamadas e justificadas. Nações não são descritas como adotadas e unidas a Cristo. Nações não são descritas como glorificadas salvificamente. Na verdade, Paulo especificamente nega a eleição corporativa de Israel com respeito à salvação individual em Romanos 9. O arminiano consistente precisa encontrar um texto onde Paulo responde a questão sobre por que nem todo o Israel está sendo salvo como algo do tipo “por que Deus escolher eleger gentios como uma nação.” Além do mais, se a graça preveniente universal é uniformemente distribuída, então por que uma pessoa não resiste a ela enquanto outro resiste? Por que um crê e o outro não?

            O verbo (eklego) normalmente toma um objeto definido: Cristo escolheu os doze apóstolos (Lc 6.13; Jo 6.70; 13.18; At 1.2). O pai escolheu o filho (Lc 9.35). A igreja escolheu Estêvão (At 6.5). A igreja escolheu Silas e Barnabé (At 15.22). Não há, então, presunção de que o verbo não toma um objeto definido e/ou tem uma classe plural, abstrata em vista. A noção de escolha do senso comum é geralmente construída para significar “selecionar de um grupo,” não “selecionar um grupo”. O uso bíblico simplesmente confirma esta noção.

            Isto não é uma negação de que ele pode e toma um objeto coletivo. No entanto, mesmo quando o verbo toma um objeto coletivo, não há separação lógica ou prática entre um grupo e seus membros constituintes. Uma classe é composta de indivíduos. Cristo não escolheu os apóstolos como uma classe, mas os apóstolos individuais, não um conjunto nulo a ser preenchido pelo anônimo “quem quiser”. Cristo disse que Deus deu a ele um povo (João 6.37) e que nenhum individuo que vai a ele será recusado (44). Ele então claramente afirmou que ninguém pode vir se não for atraído, e que o individuo será ressuscitado no último dia. Estes são indivíduos. O bom pastor chama as suas ovelhas pelo nome (João 10.13). O bom pastor dá vida eterna às ovelhas (Vs 10, 28). Isto não é eleição corporativa. O bom pastor não dá vida eterna aos réprobos, aos bodes. Paulo foi eleito como um indivíduo. Pedro foi eleito como um indivíduo. João foi eleito como um indivíduo. Lídia foi eleita como um indivíduo. Cornélio foi eleito como um indivíduo. O eunuco foi eleito como um indivíduo. O arminiano consistente deve fazer todas estas exceções para um propósito particular. Sendo assim, ele tem admitido que a eleição não é um conceito corporativo. Você não pode dizer que a eleição salvífica é um conceito corporativo, e então imediatamente proceder para fazer exceções. Nós fomos eleitos como indivíduos, e nós nos tornamos isto pelo qual nós fomos eleitos. Além disso, a prova que Deus elege corporativamente não é prova que ele não elege individualmente.

            Eu perguntaria, o amor de Deus é individual ou corporativo? Se a resposta é “ambas” ou “individual”, então por que não dizer que a eleição dele é corporativa e não individual? O arminiano não toma geralmente as passagens de pantos e kosmos  e as aplica a cada individuo? O amor de Deus é pessoal ou impessoal? O amor e o chamado de Deus são extendidos, de acordo com a teologia arminiana, a todos sem exceção através da graça preveniente. No entanto, sua eleição, pareceria que é corporativa e não individual. Isto em última análise significa que Deus escolhe inicialmente classes sem membros em um plano e estilo impessoal, não indivíduos. O ato de Deus da eleição não foi nem impessoal nem mecanicista, mas foi permeado com amor pessoal por aqueles a quem ele escolheu. (Grudem) A justificação é corporativa? Adoção? Santificação? Glorificação? Regeneração?

            Os pescadores não contam o número de peixes em suas pescas? Você não conhece seus filhos pelo nome? Os pastores não chamam pelo nome e contam as ovelhas em seus rebanhos? Os coletores de impostos não adicionam e especificam os bens tributáveis? Os exemplos poderiam ser multiplicados. Uma disjunção entre eleição corporativa e eleição individual está fora de correspondência com o individualismo inerente da soteriologia arminiana. Como você combina livre arbítrio libertário com um modelo corporativo consistente de nosso destino espiritual, salvífico? A autonomia pessoal e a identidade corporativa estão em Antípoda, e se, para o bem do argumento, nós fôssemos admitir que os autores do NT não desenharam uma inferência consciente da eleição corporativa para a eleição individual, a relação classe/membro ainda permanece para o arminiano assim como para o calvinista, então a objeção arminiana ainda falha.

            Um calvinista não nega a dimensão corporativa da eleição. Nós reconhecemos que uma pessoa pode saber se ela é parte “dos eleitos” por meio da vontade revelada de Deus (fé, arrependimento, etc; isto é parte de nossa doutrina da segurança); mas este não é um princípio que significa que Deus elegeu um plano ou Deus elegeu Cristo e então qualquer conjunto anônimo de voluntários poderia entrar ou sair. Em vez disso, Deus está salvando um povo — um povo que compreende sua igreja, os amados, aqueles chamados por Deus, mas isto não autoriza você a causar uma divisão entre eleição corporativa e individual, colocando a primeira contra a última. A eleição tem meios assim como fins. Ser escolhido em união com Cristo é ser pessoalmente apontado para a salvação, não à parte de Cristo, mas através de Cristo, como nosso redentor pessoal. Quando Paulo fala dos eleitos que creram no evangelho e receberam o selo da salvação (Ef 1.13-14), o efeito da eleição e o campo dela termina nos indivíduos eleitos.  Paulo usa o plural (nos) porque ele está escrevendo para a igreja de Éfeso. Ele está endereçando sua carta para uma congregação, mas uma congregação é composta de membros individuais.

            É impossível ter uma eleição nacional sem a eleição de unidades individuais dentro do grupo nacional, porque você ainda deve lidar com as unidades no grupo. Então, dizer que Romanos 9, por exemplo, tem a ver apenas com eleição nacional e não com eleição individual é uma impossibilidade; isto é, isso é uma contradição em termos. Se nós dissermos que é eleição nacional, então nós temos a eleição de um número de unidades individuais dentro do corpo nacional, desde que nem todo o mundo na nação é eleito salvificamente. Então, nós voltamos à mesma questão que nós começamos quando nós falamos sobre eleição. Por que uma pessoa é eleita e não outra? Nós respondemos: o amor pessoal de Deus e a misericórdia a um e não a outro. Nós agradecemos aos nossos amigos arminianos por revelar que eles creem que a salvação é simplesmente uma questão de justiça retributiva, impessoal, não misericórdia absoluta, pessoal.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2006/10/corporate-or-individual.html

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