sábado, 2 de agosto de 2014

JERUSALÉM, JERUSALÉM! (UM COMENTÁRIO DE MATEUS 23.37)



Por Steve Hays

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!” (Mateus 23-37)
            I) Mateus 23.37 é um texto de prova arminiano. Há um contraste entre “eu quis” mas “tu não quiseste”.

            II) Uma questão é o sentido no qual Deus/Jesus “quis” ajuntá-los. Qual é a natureza desta ação divina? Como ela é expressa? De modo semelhante, em que sentido ela é rejeitada?

            Um problema é que as edições da Bíblia tipicamente separam o v. 37 dos versos anteriores. Esta formatação rompe o fluxo do argumento. Mas no contexto, o v. 37 continua o tema de Deus enviar os profetas para Israel. Então o sentido no qual Deus “quis” é enviando os profetas. E o modo pelo qual “tu não o quiseste” é ao rejeitar os profetas de Deus.  

            Porém, rejeitar a palavra profética é perfeitamente consistente com a predestinação. Na verdade, nós temos exemplos bíblicos explícitos de Deus endurecendo o público para assegurar sua falta de receptividade.

            III) Há também um surpreendente paralelo entre Mt 11 e Mt 23. Em ambos os casos, Cristo repreende as cidades por rejeitarem a correção profética.

“Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operara a maior parte dos seus milagres, o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazin! ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem operado os milagres que em vós se operaram, há muito elas se teriam arrependido em cilício e em cinza. Contudo, eu vos digo que para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, porventura serás elevada até o céu? até o hades descerás; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Contudo, eu vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para ti.” (Mt 11.20-24)
            No entanto, a rejeição deles é no fim das contas atribuída à ação divina:

“Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
            Há uma distinção entre ver e perceber. Todos eles viram os seus milagres, mas nem todos responderam adequadamente. A percepção humana é um resultado da revelação divina, enquanto que a visão humana sem a percepção é um resultado da ocultação divina. A iluminação interior ausente, evidência externa não produz crença. A resposta favorável ou desfavorável é delineável à ação divina.

            O complemento para Mt 23.37 é Lc 19.41:

“E quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah! se tu conhecesses, ao menos neste dia, o que te poderia trazer a paz! mas agora isso está encoberto aos teus olhos.” (Lc 19.41-42)
            Como eu já destaquei, O v. 41é problemático para os arminianos:

            Mas a dificuldade (para os arminianos) é intensificada pelo v. 42. O uso do passivo divino e o motivo do endurecimento divino. Como um comentarista explica:

“O significado é provavelmente “Deus escondeu” da vista (espiritual) de Jerusalém, e isto se torna evidente pela destruição dela (pois o v. 43 é hoti= “porque”). Em uma típica combinação bíblica do pensamento de que os judeus são responsabilizados pela queda da cidade (eles poderiam ter conhecido), enquanto ao mesmo tempo é o resultado do decreto divino.” C. F. Evans, St. Luke (Trinity Press 1990), 684. 

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino






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