segunda-feira, 20 de outubro de 2014

TEXTOS DE PROVA ANOTADOS: UM CASO EXEGÉTICO PARA O CALVINISMO – Ef 1.3-14



Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado; em quem temos a redenção pelo seu sangue, a redenção dos nossos delitos, segundo as riquezas da sua graça, que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência,fazendo-nos conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que nele propôs para a dispensação da plenitude dos tempos, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra, nele, digo, no qual também fomos feitos herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, com o fim de sermos para o louvor da sua glória, nós, os que antes havíamos esperado em Cristo; no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória.” (Ef 13-14)

            Em todo o restante desta passagem (1.4-14), Paulo dá uma série de razões por que Deus é digno de ser louvado. A primeira refere-se à escolha de Deus de seu povo na eternidade passada.

            [11-12] Paulo sempre enfatiza fortemente que Deus não está respondendo aos eventos como eles se desdobram com várias contramedidas, mas que ele tem um plano designado cuidadosamente que ele está revelando e cumprindo, especialmente como ele se relaciona à escolha e redenção de seu povo. Aqui ele usa três palavras diferentes para expressar o fato de que ele tem um plano (prothesis, boule e thelema). É difícil encontrar sombras de diferenças entre as três palavras, especialmente quando elas aparecem neste contexto. É melhor reconhecer uma ênfase retórica na soberania de Deus.

            É importante para os leitores saber que Deus tem o poder (energeo) para colocar seu plano em ação. O poder de Deus é um tema maior nesta carta, e Paulo aqui a introduz afirmando enfaticamente que Deus desdobrará poderosamente o seu plano como ele quis que fosse e contra qualquer oposição concebível. Para afastar qualquer duvida, Paulo explica que Deus faz todas as coisas (ta panta) de acordo com seu propósito. (C. Arnold, Ephesians (Zondervan 2010), 79. 90).

            [1.4: “nele”] Um ponto de vista é que isto poderia ser considerado como um dativo de esfera, o que conota a ideia de que nós somos escolhidos em Cristo como o cabeça e representante da comunidade espiritual assim como Adão é o cabeça e representante da comunidade natural. O outro ponto de vista é que isto poderia ser relacional ou instrumental no sentido de que Deus escolheu crentes em conexão com ou através da obra redentora de Cristo. A última interpretação é preferível porque ela expressa que Deus escolheu o crente para a sua gloria e que isto tinha de ser feito em conexão com a redenção realizada em Cristo.
            [1.11] O tempo presente se refere à atividade contínua com respeito ao propósito que ele decidiu na eternidade passada. O “todas as coisas” (ta panta) refere-se a toda a providência de Deus e não deve ser restrita ao seu plano redentor. Isto coincide com o v.10 onde “todas as coisas” são descritas como “aquelas coisas no céu e aquelas coisas na terra”. (H. Hoehner, Ephesians: An Exegetical Commentary (Baker 2002), 177, 229)

            O grande tema da divina eleição é o primeiro a ser introduzido quando a mente de Paulo remonta antes da criação, antes que o tempo começasse, na eternidade na qual apenas o próprio Deus existia. A eleição é uma das variedades de motivos encontrados neste magnífico parágrafo que descreve diferentes facetas dos propósitos graciosos e salvíficos: note a linguagem da predestinação (5-11), beneplácito (5,9), vontade (5,9,11), mistério (v.9), propósito (v.9; v.11), apontamento (v.11) e plano (v.11).

            Há claramente uma dimensão corporativa para a eleição de Deus. Foi intenção de Deus criar para si mesmo um povo perfeitamente conformado à semelhança do seu filho (Rm 8.29-30). É inapropriado, porém, sugerir que a eleição em Cristo é primariamente corporativa em vez de pessoal e individual. Alguns dos dons divinos, por exemplo, redenção e perdão de pecados em Cristo (v.7), junto com o selo do Espírito Santo seguindo a crença no evangelho da salvação (v. 13,14), devem ser entendidos como vindo aos crentes pessoal e individualmente.

            Além disso, sugerir que a eleição em Cristo “não está relacionada principalmente a salvação individual, mas ao propósito de Deus” introduz um “ou-ou” desnecessário. A predestinação é para um relacionamento com Deus pai através de seu filho, descrito no v.5 sob a imagem da adoção.

            Esta escolha em Cristo foi feita na eternidade, antes do tempo e da criação, como a frase “antes da criação do mundo” deixa clara. A linguagem da eleição antes da fundação do mundo ocorre um número de vezes nas cartas paulinas, não menos importante no contexto de ação de graças (I Ts 1.4; 2.13; Rm 8.29; II Tm 1.9), como parte de uma expressão de gratidão pela graça maravilhosa de Deus. Dizer que a eleição aconteceu antes da criação indica que a escolha de Deus foi devido a sua livre decisão e amor, os quais não foram dependentes das circunstâncias temporais ou méritos do homem. As razões para a sua eleição foram enraizadas nas profundezas de sua natureza graciosa e soberana.

            O verbo “preordenar, predestinar”, o qual aparece seis vezes no NT, é usado exclusivamente de Deus (Rm 8.29-30; I Co 2.7; Ef 1.5, em relação à filiação, cf. 1.11; At 4.28) e serve para enfatizar sua iniciativa e autoridade exclusivas em nossa salvação. A predestinação é para um propósito que Deus designou, neste caso, a adoção.

            A base ou padrão da ação de Deus em nos preordenar para sermos seus filhos é decifrado na frase composta “conforme o beneplácito da sua vontade” que significa não simplesmente o propósito de Deus, mas também o prazer que ele tem em seus planos. “Vontade” significa aquilo que é planejado, pretendido.

            Ao dar aos gentios crentes o Espírito, Deus os “Sela” com o seu próprio agora, e ele os protegerá através das provações desta vida (cf. 6.10-18) até que ele tome posse definitiva deles (cf v.14) no “dia da redenção” (4.30).

            O Espírito Santo por quem os crentes gentios foram selados é agora chamado de “o penhor da nossa herança”. Além disso, nesta tradução encontra-se a palavra que significa “garantia”. Ao dar [o Espírito] para nós Deus não está simplesmente nos prometendo nossa herança, mas na verdade nos provendo com uma antecipação dela.

            Ele os fez para si mesmo: eles são seu tesouro mais precioso. “Eles serão meus”, diz o Senhor Todo-Poderoso, “no dia que eu constituir minha possessão” (Ml 3.17). (P. T. O'Brien, The Letter to the Ephesians (Eerdmans 1999), 98-100,102-103,120-122).

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/07/annotated-prooftexts.html

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