sábado, 8 de novembro de 2014

TREM EXPRESSO PARA O CÉU: A FALHA ILUSTRAÇÃO DE JERRY WALLS EM Rm 8.29-30

Por Steve Hays

“Paulo resume a ação de Deus em nos salvar em termos de nos conhecer de antemão, nos predestinar, nos chamar, nos justificar e nos glorificar.
Pense da seguinte forma. A predestinação é como um trem que tem um destino predeterminado. Todos aqueles que embarcam no trem e permanecem nele inevitavelmente chegarão ao destino predeterminado. Além disso, não há outra forma de alcançar aquele destino. Se nós quisermos chegar lá, nós temos que entrar naquele trem e permanecer nele através de cada parada ao longo do caminho.”


            I) “Os que dantes conheceu” não é a tradução mais precisa de proginosko nesta passagem. BAGD a define como “escolhidos de antemão”. E mesmo Brian Abasciano admite que esta tradução seja mais precisa.

            II) um problema básico com a analogia de Jerry Walls é que se nós vamos usar um trajeto de trem para ilustrar Rm 8.29-30, então é Deus quem escolhe os passageiros de antemão. Deus é quem os coloca no trem. Deus é quem os mantém no trem. Rm 8.29-30 não é um processo de atrito, onde os passageiros que chegam ao destino designado não são os mesmos passageiros que embarcaram no trem em primeiro lugar.

            Na verdade, não há paradas. Eles não descem antes do destino final. Em vez disso, coisas acontecem com eles (ou para eles) a bordo. Dentro do trem. Como comer e dormir. Nutrição espiritual.

            III) Na analogia de Jerry, o trem está predestinado, mas os passageiros não estão. Pela sua lógica, se o trem chegasse vazio em seu destino celestial, isto ainda teria servido a seu propósito uma vez que a predestinação apenas se aplica ao trem, não aos passageiros, se for o caso. Se o trem está cheio ou vazio é irrelevante para como ele reformula a questão.

            Esta é uma muito reveladora, ainda que involuntária, ilustração da vacuidade da eleição corporativa como um substituto para a eleição individual.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino


3 comentários:

  1. 1) "Os que dantes conheceu" é a tradução mais precisa. Se essa expressão carrega o sentido de "escolhidos de antemão", isso não muda o fato de que aquela é a tradução mais precisa.

    2) Não há nenhum "problema básico" na defesa de Walls, já que ele não nega que seja Deus quem escolhe quem embarca no trem. A questão não é QUEM faz a escolha, mas COMO Deus faz essa escolha. O resto são apenas afirmações em contrário, que nada provam (como - mais ou menos assim - os passageiros que embarcam são os mesmos que desembarcam).

    3) O último ponto mostra o má compreensão (frequente) de Hays sobre o entendimento da Eleição Corporativa. Para início de conversa, se houvesse a possibilidade do trem chegar vazio, ou seja, de ninguém ser salvo, Deus não faria um plano de salvação que resultaria nesse fracasso. Essa com certeza é a objeção mais infantil do texto.

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    1. Vou responder a mesma coisa que respondi no facebook com alguns comentarios a mais em resposta ao que você comentou depois:

      1) "Os que dantes conheceu" é a tradução mais precisa. Se essa expressão carrega o sentido de "escolhidos de antemão", isso não muda o fato de que aquela é a tradução mais precisa." Mas nem Abasciano crê que "os que dantes conheceu" é a melhor tradução, mas sim "escolhidos de antemão".

      “2) Não há nenhum "problema básico" na defesa de Walls, já que ele não nega que seja Deus quem escolhe quem embarca no trem. A questão não é QUEM faz a escolha, mas COMO Deus faz essa escolha. O resto são apenas afirmações em contrário, que nada provam (como - mais ou menos assim - os passageiros que embarcam são os mesmos que desembarcam).”
      Mas Walls não diz que é “Deus quem escolhe quem embarca no trem”, até porque não faz sentido algum à luz de uma eleição corporativa, já que Deus escolhe a igreja mas não necessariamente quem faz parte desse corpo

      “ É também falso que a "a predestinação apenas se aplica ao trem, não aos passageiros".
      Pela ilustração de Walls a predestinação se aplica apenas ao trem sim, visto que ele mesmo diz que “a predestinação é como um trem que tem um destino predeterminado”, mas que cabe a cada um entrar nesse trem e que não necessariamente Deus determinou quem entrará nele. Em que sentido a predestinação se aplica aos passageiros? Qual a definição de predestinação?
      “Muito pelo contrário, esse entendimento diz que, o que é verdadeiro do trem é verdadeiro dos passageiros por sua identificação com o trem. Ou falando do que esse entendimento realmente ensina, o que é verdadeiro de Cristo é verdadeiro dos crentes (a Igreja, o corpo de Cristo) por sua identificação com Cristo, pela fé. Uma vez que alguém está em Cristo, o Eleito por excelência, alguém é eleito também.”
      A questão aqui não é a identificação de Cristo com os crentes, mas que pela lógica de Walls só o trem está predestinado, mas não necessariamente quem está nele. É claro que a sua definição aqui de predestinação irá diferenciar da minha nesse sentido.

      "Preciso salientar que Efésios 1.4 diz que os crentes foram eleitos "nele"?" Quando o texto diz “nos escolheu nele” isto significa que Deus escolheu que a salvação seria experimentada “através de Cristo”. Ele é o agente e a pessoa através de quem a obra eletiva de Deus se concretizaria.

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    2. Vou responder a sua outra réplica no facebook aqui:

      "A eleição corporativa envolve a eleição individual. Ela somente diz que o aspecto primário da eleição é o coletivo e o secundário os indivíduos, exatamente como na eleição de Israel.”
      Mas em que sentido então Deus escolhe indivíduos ao mesmo tempo em que escolhe um povo coletivamente? Seria pela presciência? Isto é, de um lado Deus escolheu incondicionalmente a igreja, mas não incondicionalmente aqueles que fazem parte dela, e sim por seu conhecimento antecipado? Se não é dessa forma, então como uma outra interpretação que não seja calvinista ainda está em jogo?

      “uma vez que a eleição de Israel é um exemplo clássico de eleição corporativa.”
      Não negamos isso.
      “Os judeus não foram eleitos individualmente.”
      Sim, foram. O aspecto coletivo não anula o individual. A todo tempo Paulo se refere a indivíduos em Rm 9 (v.19-21 por exemplo), v.24: “os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” isto é, um subconjunto dentro de um conjunto maior.

      “A doutrina da eleição corporativa é, na verdade, o único tipo de eleição conhecido no Antigo Testamento, e cabe a alguém provar que Paulo ensinou um outro tipo de eleição no Novo.”

      Ef 1 por exemplo, uma vez que todas as bênçãos das quais Paulo fala se aplicam a indivíduos como adoção, santificação etc. Por que a eleição que está dentro do mesmo padrão paulino se aplicaria unicamente ao aspecto coletivo? Não faz sentido fazer essa separação.

      “E o trem não é a igreja, mas Cristo, na analogia que Walls faz. Portanto, não é exatamente que Deus escolhe a igreja, mas que ele escolhe Cristo. A igreja, na verdade, é escolhida "nele".
      Não existe isso aqui. Ef 1.4 não diz que Cristo é quem é escolhido. O objeto do verbo “escolher” é “nos”.
      “Por sua identificação com Cristo, os crentes passam a ter direito a dizer que o que é verdadeiro de Cristo é verdadeiro deles próprios. Um crente é chamado de filho, santo, eleito porque isso é verdadeiro de seu representante (no caso, Cristo, muito embora essa linguagem tenha sido tomada do Israel do Antigo Testamento).”
      Mais uma vez essa ilustração da identificação com Cristo não é o ponto aqui. Não nego que os crentes são identificados com Cristo. Eu acho que o que você quer dizer com isso é o que Forster e Marston afirmam: “Nós somos escolhidos em Cristo. Isto não significa que nós fomos escolhidos para sermos colocados em Cristo. Isto significa que quando nós nos arrependemos e nascemos de novo no corpo de Cristo, nós participamos do seu povo eleito.”
      Não creio que seja esse o sentido aqui, mas como disse anteriormente, nós fomos escolhidos “nele” no sentido de que é em Cristo que a salvação é aplicada. A eleição não é em Paulo, Pedro ou em outro qualquer, mas em Cristo. De modo que aqueles que foram eleitos antes da fundação do mundo deverão crer em Cristo.

      “A sua resposta passa a ideia de uma eleição já concluída, da qual Cristo não teve a menor participação, mas que somente entra em cena para concretizá-la.”
      O propósito da eleição foi feito na eternidade, quem nega isso? E como assim Cristo não teve a menor participação? Claro que teve. O propósito da eleição em Cristo é desde a eternidade, mas aplicado no tempo determinado. Então a sua interpretação da minha resposta não faz sentido."

      Só mais uma observação: [1.4: “nele”] Um ponto de vista é que isto poderia ser considerado como um dativo de esfera, o que conota a ideia de que nós somos escolhidos em Cristo como o cabeça e representante da comunidade espiritual assim como Adão é o cabeça e representante da comunidade natural. O outro ponto de vista é que isto poderia ser relacional ou instrumental no sentido de que Deus escolheu pessoas em conexão com ou através da obra redentora de Cristo. A última interpretação é preferível porque ela expressa que Deus escolheu o crente para a sua gloria e que isto tinha de ser feito em conexão com a redenção realizada em Cristo.

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