domingo, 4 de janeiro de 2015

ESCOLHA CONTRÁRIA



Por Steve Hays

            Eu irei fazer alguns comentários sobre este artigo: Paul Himes, “When a Christian Sins: 1 Corinthians 10.13 and the Power of Contrary Choice in Relation to the Compatibilist-Libertarian Debate.” JETS 54 (June 2011): 329-344.[1]

            Algumas considerações gerais antes de examinar os detalhes:

            I) Himes é mais confortável com exegese do que com filosofia.

           II) A propósito (I), suas bases filosóficas  são homens como Ware, Nash, e Edwards. Mas Edwards dificilmente representa o determinismo moderno, enquanto Nash e Ware são dificilmente os mais astutos expoentes do determinismo.

            Ware não é de fato um autêntico calvinista, embora eu aprecie sua crítica do teísmo aberto. E ele é melhor na tarefa destrutiva do que na tarefa reconstrutiva.

“O que, então, I Co 10.13 tem a ver com o debate libertário-compatibilista? Para começar, devem-se enfatizar os limites que I Co 10.13 coloca na natureza da tentação. O verso indica que o cristão não é forçado a sucumbir à tentação e possui a capacidade de resistir. Em outras palavras, a tentação tem seus limites e não possui o poder de forçar o cristão a render-se a ela (ou, mais precisamente, ela não possui o poder de tornar o cristão incapaz de suportar). Em outras palavras, a tentação é tal que não sucumbir a ela é possível.”

            I) Equiparar predestinação com “força” é uma mentira popular. “Força” sugere que nós estamos agindo contra a nossa vontade. Que nós conscientemente queremos fazer uma coisa, mas somos preparados a fazer algo mais. Porém, predestinação (ou determinismo) geralmente atuaria em um nível subconsciente. Nós não resistimos conscientemente o que nós somos predestinados a fazer, pois todos os nossos pensamentos, sentimentos, e ações são efeitos perfeitamente consistentes da predestinação. Nós não somos diretamente conscientes do que está causando eles. Falta-nos este distanciamento ou objetividade.

            II) Além disso, se a predestinação é verdadeira, então não é a tentação que nos “força” a sucumbir a ela. Antes, é a predestinação que assegura o nosso ato de sucumbir à tentação. Se a predestinação é verdadeira, então a tentação não é uma condição suficiente para garantir o ato de sucumbir à tentação, pois Deus poderia predestinar que ou nós resistamos ou cedamos à mesma tentação.

            Sem dúvida, Himes não consideraria isto como um aperfeiçoamento em relação à versão que ele está atacando. Porém, seu argumento não é calibrado à posição real que ele está atacando. Então isto não deriva de sua exegese, ainda que sua exegese fosse sólida. No mínimo, ele precisaria reestruturar seu argumento, assumindo que seu argumento original possa ser salvado.

“Assim, se a interpretação deste ensaio de I Co 10.13 estiver correta, deve-se afirmar que um crente, não importa qual seja a situação, tem a habilidade de escolher não pecar (uma vez que Deus não permite que a tentação chegue a um ponto onde o resultado final é, por necessidade, o pecado).”

            I) Isto presume que o verso está tratando sobre tentação em geral, em vez de um tipo específico de tentação. Mas é discutível que Paulo tenha referência específica à proteção divina contra a apostasia ou pecados que levam a apostasia.

            II) Se nós aceitarmos sua interpretação, então este é um argumento a favor do perfeccionismo. É possível que um cristão possa levar uma vida sem pecado. Mas isto é escriturístico ou empiricamente plausível?

“Além disso, por “possível”, nós queremos dizer “uma possibilidade legítima”. Alguém poderia argumentar que resistir o pecado é fisicamente ou mentalmente possível, mas que a escala de valores pré-definida do cristão já decretou que ele ou ela não resistirá à tentação ao pecado. No entanto, isto parece perder todo o ponto da passagem e permitir aos crentes coríntios a mesma desculpa que Paulo busca negá-los. Em outras palavras, os coríntios poderiam simplesmente argumentar que sua escala de valores tem sido definida de tal forma que eles naturalmente valorizam a vida social da cidade sobre a própria santificação deles. Uma vez que sua própria escala de valores fora definida por coisas fora do controle deles (incluindo seu próprio caráter), eles poderiam legitimamente dizer, de acordo com um esquema compatibilista, que a tentação era demais para eles naquela situação particular, o exato ponto que I Coríntios 10 nega.” 

                I) Na verdade, a noção de que nosso caráter pode pré-selecionar nossas escolhas é consistente com o libertarianismo. Escolhas anteriores podem moldar o caráter, o que, por sua vez, condiciona escolhas subsequentes.

            II) Se um cristão fosse predestinado a pecar, ele citaria a predestinação para se desculpar de seu pecado? Mas isto apresenta algo de um paradoxo psicológico. Pois, como eu já observei, o fato da predestinação não implica uma consciência da predestinação. Isto é normalmente subconsciente. Nós não experimentamos diretamente a predestinação. Antes, nós experimentamos o resultado. Nós estamos no fim da recepção do processo. Nossa experiência sentiria o mesmo se nossas escolhas e ações fossem arbitrariamente produzidas.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino




[1] Paul Himes, “Quando um cristão peca: I Co 10.13 e o poder de escolha contrária em relação ao debate compatibilista-libertário”.

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