quinta-feira, 30 de julho de 2015

UMA RESPOSTA AO DR. BRIAN ABASCIANO


Por Evandro Junior

Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade.” (2 Ts 2.13)
            Dr. William Mounce escreveu em seu blog um texto sobre 2 Ts 2.13. O seu propósito era demonstrar a clareza do texto que trata da conhecida ‘ordo salutis’. Ou seja, Paulo estaria dizendo que esses crentes foram “eleitos PARA a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”.  Aqui está o texto do Dr. Mounce: 

            Isso contraria a tese arminiana de que as pessoas são eleitas pela fé, então passam a ser salvas. A eleição não antecede a fé para salvação (como no sistema calvinista), mas a eleição está condicionada à fé de alguém.  Assim, Dr. Brian Abasciano, um estudioso arminiano bem conhecido nos Estados Unidos, escreveu uma réplica interessante sobre o texto do Dr. Mounce: 

            Abaixo, segue algumas razões que me levam a crer que o texto de 2 Ts 2.13 ensina, de fato, eleição para a salvação (e esta salvação é mediante a fé, e não a eleição). 

               1.  ABasciano não trata do fluxo da fraseologia do texto em questão, a ordem das palavras no texto grego, os conectivos entre as sentenças indicando esse fluxo, tudo isso é simplesmente ignorado.  Por exemplo: a preposição (“para”; gr. εἰς) depois do verbo “eleger” tem a função télica (i.e. uma preposição de propósito), pois está junta a um acusativo (i.e. “salvação”, gr. “σωτηρίαν”).  Essa estrutura de preposição+acusativo explica o propósito do verbo (“eleger”) imediatamente antecedente à preposição. Assim, ficaria traduzido: “escolheu PARA a salvação”. Desta maneira, o que segue imediatamente a esta sentença passa a complementar a última palavra (i.e. salvação), e não o verbo "escolher", que já foi complementado pela preposição anterior (gr. εἰς). Mas Abasciano silencia totalmente sobre o assunto.

               2.  Abasciano despreza o que a teologia do NT diz sobre a harmonia dos elementos do texto (ex.: eleição, fé, santificação etc.), mas volta-se para a Septuaginta (?). O ponto dele é encontrar a mesma estrutura de palavras. Porém, o máximo que ele pôde fazer foi mostrar algo pouco parecido, ou seja, o autor ainda negligenciou que isso é praticamente impossível, pois há muita diferença entres os textos do AT que o mesmo colocou e esse de 2 Ts 2.13 (ex.: um dativo duplo sucedendo a preposição ἐν etc.). Os contextos são bem diferentes, por isso as estruturas mostram-se diferentes também. Porém o ponto mais importante não foi tomado, a análise do contexto. Esse é o nosso próximo ponto.
              3. Todavia, não é preciso ir tão longe para analisar esse texto. O NT descreve a relação entre esses elementos de 2 Ts 2.13 em outros lugares. Aliás, a própria teologia paulina considera que a fé tem uma relação de meio para a salvação (cf. Rm 1.16; 10.10; Ef 1.13), mas nada fala desta sendo um meio para a eleição (cf. Paulo em 2 Tm 2.10 escrevendo  de forma bem semelhante). 
              4. Abasciano é reservado em afirmar que as preposições não modificam apenas os verbos (ex.: eleger), mas os próprios nomes (ex. salvação, fé). Dessa maneira, ele não apenas usa o livro de Bill Mounce, mas a gramática do Dr. Wallace.  Aqui ele o faz de modo incompleto e parcial, pois, embora Abasciano seja honesto em reconhecer de algum modo as preposições gregas modificando os nomes, todavia, ele não mostra isso nas páginas anunciadas em seu texto. Não apenas Mounce, mas Wallace entende assim (cf. 360-362).

            Concluindo, se admitíssemos a linguagem paulina de “salvação pela fé” aqui nesse texto, corroborando outros do mesmo autor em outras cartas, então, não teríamos dificuldades mais técnicas. Além disso, a cadência das expressões permite, de fato, um fluxo de pensamento muito natural apenas lendo o texto: 1) a eleição é para a salvação; 2) a salvação acontece pela santificação do Espírito e fé na verdade. As versões bíblicas brasileiras fizeram muito bem em traduzir tão puramente esse texto.



 



3 comentários:

  1. Esperava ver alguma analise do contexto que implicasse na visão calvinista, mas infelizmente não foi o que percebi. O ponto 1 é exatamente o que está em discussão entre Abasciano e Mounce, não percebi nada novo.
    Sobre o questionamento do autor, no ponto 3, "mas nada fala desta sendo um meio para a eleição", eu creio que há sim várias passagens no NT descrevendo diretamente e indiretamente uma relação instrumental entre fé e eleição. Indiretamente eu diria que há uma série de correlações mostrando que os eleitos no NT são os que já são crentes. Ser um eleito na nova aliança é uma auto-referencia aos que já chegaram em fé em cristo. Pela fé somos unidos a Cristo - o cabeça corporativo - e compartilhamos de sua eleição. Não há nenhum versiculo falando de eleitos em potencial na biblia, mas somente auto-referencias à cristãos. Sempre que Paulo e Pedro iniciava a sua carta aos "eleitos" ele tinha em vista a igreja e não um grupo de individuos pré-selecionados na eternindade.
    Uma relação direta entre muitas pode ser vista em Efesios 1:4 que para mim é crucial nesse ponto. A preposição en é usada por toda a carta exatamente como uma designação instrumental - por meio de
    Salvação "em cristo"(1:2)
    Abençoados "em cristo"(1:3)
    Assim como em 1:9,1:10,1:10-11,1:12,1:13,1:20,1:22,1:23,2:6,2:10,2:18,2:21,2:22,3:17,3:19 são referências a bençãos que o corpo de cristãos desfrutam corporativa e individualmente no novo pacto. Eleito "nele" ou 'em Cristo '(vs4)não poderia ser diferente

    Abrçs,

    Wanderson







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  2. O comentário acima ficou numa formatação muito ruim. Outra coisa que eu queria destacar sobre 2Ts2:13 é que há muito a ser discutido ainda sobre o contexto, além da gramatica. Mas eu de forma nenhuma vejo esse texto como definitivo para a eleição incondicional ou condicional apesar de eu ve-lo fortemente em favor da eleição condicional.

    Algum calvinista pré-tribulacionista talvez goste do artigo do calvinista George Gunn.

    Gunn, apesar de ser calvinista não vê essa passagem fortalecendo a eleição incondicional.

    http://www.pre-trib.org/data/pdf/Gunn-2Thessalonians213ARa.pdf

    Apesar de eu estar muito mais entre o dispenssacionalismo progressivo ou amilenismo (sei é estranho), há muitos insights interessantes no texto que podem ser utilizados e eu não achei a conclusão escatólogica dele necessária. Há muitos argumentos interessantes no texto

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    1. costumo dizer que é melhor tratar a eleição de forma individual do que coletiva, pois não muda o fato de Ele eleger sem depender de quem quer ou corre, ou aceita a Cristo. O homem em seu estado de pecado nunca encontrará o que ele não busca e não sabe que necessita. Nada muda o fato de que Deus é o controlador geral e especial de tudo, mesmo que fosse por permissão, o que sabemos que não é o caso.

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